segunda-feira, 15 de julho de 2019

IRMÃOS BERNARDELLI



Continuando a comemoração dos 110 anos 
do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 
destacamos dois outros nomes 
ligados à sua história.



Os irmãos Bernardelli,  Rodolpho e Henrique, foram grandes artistas do século XIX, que  influenciaram dezenas de artistas do século XX. Vieram para o Brasil  com seus pais, para serem preceptores das princesas Isabel e Leopoldina, a convite do imperador d.Pedro II.





Rodolpho Bernardelli  -  José Maria Oscar Rodolpho Bernardelli y Thierry -  (1852-1931)

Nasceu em Guadalajara e faleceu no Rio de Janeiro.
Foi escultor, professor e naturalizou-se brasileiro.
Um dos maiores escultores brasileiros, deixou uma extensa produção, entre obras tumulares, monumentos comemorativos e bustos de personalidades. Considerado um dos reformadores do ensino artístico no Brasil, Rodolfo Bernardelli alcança uma posição tão destacada no círculo de artes, o que o leva a assumir o cargo de primeiro diretor da recém-instituída Escola Nacional de Belas Artes. Por lá chega vitorioso, contava com a simpatia da Família Imperial e já era um artista reconhecido. Como  maior nome da escultura nacional passa a receber uma série de encomendas, incluindo alguns monumentos de grande porte.Fica na escola entre 1890 e 1915, e nesse  período propõe, inclusive, a edificação da nova sede na avenida Rio Branco.

Figura miúda, rosto avermelhado contornado por uma barbicha bem desenhada, personalidade calma, comedida, homem que nunca levantava a voz mas que impunha respeito, severo e ao mesmo tempo dotado de fina ironia, atencioso e íntegro, dono de grande magnetismo pessoal. Foi amado, respeitado e até mesmo reverenciado por uma grande legião de amigos, homens como Benjamim Constant, Quintino Bocayuva, Olavo Bilac, Machado de Assis, Aluízio e Arthur de Azevedo, Raul Pompéia, Leopoldo Miguez, Angelo Agostini, Pereira Passos, Paulo de Frontin.

Mas a opinião não era unânime. Outros o acusavam de ser extremamente vaidoso, sempre se utilizando de subterfúgios para aparecer. Era visto ainda como autoritário, prepotente e sobretudo ingrato. Faziam parte desse grupo Vitor Meirelles e Antonio Parreiras, dentre outros.

No atelier da rua da Relação, um galpão construído num terreno que havia recebido do governo, Rodolpho Bernardelli vivia e trabalhava. Ali executou grande parte de sua obra. Também recebia os amigos, uma roda formada por literatos, jornalistas, políticos ocupando altos postos, artistas, nomes que formavam a sociedade culta da época e muitos dos quais foram retratados pelo artista, como se pode ver pela coleção so Museu Nacional de Belas Artes.

Um movimento de professores e alunos o afastou da direção da Escola Nacional de Belas Artes em 1915. No ano seguinte pediria a aposentadoria e só voltaria a colocar os pés na Escola, já bem idoso, para receber uma homenagem em forma de busto, feito por seu aluno Correia Lima. Nesse espaço de tempo ele viveria praticamente afastado do mundo, em seu novo atelier na praia de Copacabana, dedicado unicamente à escultura e ao convívio dos amigos mais fiéis. Morreria em abril 1931, mas não antes de dar um passeio de bonde para se despedir de seus monumentos

Da obra de Rodolpho Bernardelli vale destacar inúmeros bustos de personalidades públicas, obras tumulares e diversos monumentos comemorativos, realizados principalmente para a cidade do Rio de Janeiro, como os dedicados ao General Osório, 1894, ao Duque de Caxias, 1899, a José de Alencar, 1897 e o grupo escultórico Descobrimento do Brasil, 1900. 

O artista executou ainda as estátuas que ornamentam o prédio do Theatro Municipal, em 1905.


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Henrique Bernardelli (1858 - 1936) nasceu em Valparaiso no Chile, e também naturalizou-se brasileiro.

Foi  pintor, desenhista, gravador, professor. Matriculado na Academia Imperial de Belas Artes, juntamente com o irmão, foi aluno , dentre outros de  Victor Meirelles. De 1878 a 1886 fica na Europa aprimorando estudos e na volta ao Brasilvrealiza no Rio de Janeiro uma exposição individual que causa interesse e polêmica no meio local. São apresentadas, entre outras obras, Tarantela, Maternidade, Messalina, Modelo em Repouso e Ao Meio Dia.

Lecionou na Escola Nacional de Belas Artes de 1891 a 1905, e depois, juntamente com o irmão, passou a lecionar em um ateliê particular, na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro.

Henrique Bernardelli foi o primeiro pintor brasileiro a extrair todos os fundamentos de sua experiência artística dos processos, hábitos técnicos e cores da pintura italiana praticada por muitos artistas do século XIX. O que havia de mais particular na sua obra era o aspecto de uma pintura nova para o que aqui se conhecia. A diferença de um academismo francês, uma nova visão para a pintura, que muito havia de popular, naturalidade das coisas, dos fatos.

Temperamento irrequieto, nervoso. Tinha forte peito, músculos desenvolvidos e reforçados pelo exercício das caminhadas ao ar livre, pelo alto das montanhas, o que refletia em sua obra, que era vigorosa, original, cheia de calor, cheia de ousadia.

Na década de 1890 fez os painéis O Domínio do Homem sobre as Forças da Natureza e A Luta pela Liberdade, para a Biblioteca Nacional , ambos no Rio de Janeiro. Utilizou a técnica de afresco na execução de 22 medalhões que retratam personalidades e artistas ligados ao ensino das artes no Brasil. Essas obras adornam a fachada do Museu Nacional de Belas Artes.

Em 1986, para marcar os 50 anos da sua morte, os Correios emitiram selo reproduzindo sua obra, Maternidade.

Em sua vasta obra merecem, também, destaque importantes trabalhos decorativos, pintura de painéis, no interior do Theatro Municipal.


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Apoteose à Poesia, 
decoração de Henrique Bernardelli 
para cúpula anexa ao foyer do Theatro Municipal, 1906.


Os irmãos Bernardelli foram nossos vizinhos ilustres em Copacabana.

Duas imagens da casa Bernardelli em 1910:


1. Óleo sobre tela de José Pinelo Llull


 2. Foto do palacete toscano construído pelo arquiteto Sylvio Rebechi, em 1908


A casa Bernardelli, ficava na esquina da Rua Belford Roxo com a Av. Atlântica, onde hoje é a Praça do Lido.
A casa, uma das pioneiras no bairro, construída antes mesmo da Av. Atlântica ter suas obras iniciadas e da Av. N.S. de Copacabana, neste trecho, ainda ser um vasto areal, era notada de longe nas fotos até o final dos anos 20, quando com o aumento das construções na Av. Atlântica e o fim da pendenga judicial que bloqueava a ocupação de grande parte do Posto 2, começou a ser escondida e passar desapercebida.
Com a morte de Rodolpho Bernardelli em 1931 e de Henrique em 1936, era dada como certa a demolição da casa, que ficou fechada por muitos anos, gerando na comunidade de Copacabana um pouco comum, naquela época, desejo preservacionista da residência.
 O tema foi debatido pela Imprensa, inclusive na revista Beira-Mar. Os moradores queriam preservar a casa, não só em lembrança dos dois brilhantes artistas, como também pelo significado que a casa tinha em relação à ocupação do bairro. Muitos queriam que nela fosse instalada uma escola.
Mas os apelos foram em vão e, no final dos anos 40, a casa, em relativo mau estado, foi ao chão pelas mãos da Construtora Corcovado, a que mais destruiu o bairro no período.
O semanário Beira-Mar através de Théo-Filho - um dos escritores mais lidos no Brasil nos anos 20 - deu a manchete: 

"Consumou-se, afinal, o atentado!"

"Foi iniciada a demolição da casa dos 
irmãos Bernardelli" (Rodolpho e Henrique)...
o palacete toscano da Avenida Atlântica, ... 
construído pelo arquiteto Sylvio Rebechi, em 1908... 

Os antigos palacetes de Copacabana
- como este onde moraram o escultor e o pintor - 
começavam a desaparecer para a construção 
dos prédios de apartamentos 
em concreto armado, os arranha-céus".

Na Praça do Lido hoje existe uma escultura dos irmãos, inaugurada no centenário de Rodolfo.




segunda-feira, 1 de julho de 2019

ELISEU VISCONTI


Neste mês de julho, 
o Theatro Municipal do Rio de Janeiro 
completa 110 anos. 
Por isso vamos destacar personalidades 
ligadas à sua história.


  . Ladeira dos Tabajaras, 155 - Copacabana  


“A arte não pode parar. Modifica-se permanentemente. Agrada agora o que antes era detestado. Isto é evolução e não é possível fugir dos seus efeitos. O homem não para. Vai sempre adiante. Os futuristas, os cubistas, são expressões respeitáveis, artistas que tateiam, procurando alguma coisa que ainda não alcançaram. Eles agitam, sacodem, renovam. São dignos, por conseguinte, de toda admiração”.





Nascido na Itália, Eliseu d'AngeloVisconti (1866-1944) veio para o Brasil aos 7 anos e se tornou um dos mais importantes pintores impressionistas de nosso país. Sua vontade de ser brasileiro era tamanha que, em sua biografia, Fernando Barata escreve que ele teria imigrado para o Brasil com 1 ano de idade. O erro de Frederico Barata, mais amigo que biógrafo, com certeza foi proposital, pois Visconti se entristecia sempre que tinha contestada sua brasilidade.


“Há quase setenta anos que habito o Rio,
tenho o direto a ser carioca; 
local onde o meu espírito se formou 
e abriu-se à sensação estética 
que até hoje me prende à vida 

Sua vinda para o Brasil deu-se por influência de D. Francisca de Souza Monteiro de Barros, a baronesa de Guararema, aluna de pintura de Victor Meirelles e que se tornaria sua grande incentivadora e protetora. Como seus irmãos mais velhos, passou a viver na Fazenda São Luiz, em São José de Além Paraíba, de propriedade de Luiz de Souza Breves, o barão de Guararema.

Se a intenção do barão e da baronesa ao trazer os irmãos Visconti para o Brasil era ter mão de obra para a lavoura de café, a afeição da baronesa pelos irmãos frustraria esses planos e logo os afastaria da fazenda. Essa afeição, declarada em cartas da baronesa, ajudou Eliseu a superar a ausência dos pais, que nunca vieram ao Brasil e a iniciar sua brilhante carreira artística. 

Ainda jovem, Eliseu mudou-se para o Rio de Janeiro e se instalou no bairro do Andaraí, iniciando seus estudos de música com o compositor Vincenzo Cernicchiaro, no Club Mozart, na Rua da Constituição. Mas as lições de solfejo com Henrique Alves de Mesquita afastaram Eliseu da música. E o talento pelas artes plásticas prevaleceu, quando a baronesa viu um de seus desenhos, representando a figura de uma camponesa romana.

A conselho da baronesa, Visconti abandonou as aulas de música e iniciou os estudos de desenho e pintura no Liceu de Artes e Ofícios. Naqueles idos de 1882, a baronesa era a proprietária do antigo solar da marquesa dos Santos, em São Cristóvão, hoje Museu do Primeiro Reinado. Lá conservava precioso acervo de arte, com certeza mais um incentivo ao jovem Visconti. 

Sem abandonar o Liceu, ingressou na Imperial Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro, em 1885, estimulado por D. Pedro II. O imperador, um ano antes, em uma de suas visitas ao Liceu, impressionado com uma escultura de Visconti, aconselhou o jovem Eliseu a continuar seus estudos na Academia: 

“Por que o senhor não entra na Academia? 
O senhor deve entrar o quanto antes na Academia”

Disse-lhe D. Pedro II ao ser apresentado a Visconti. O imperador gostava de pessoalmente distribuir os prêmios aos alunos da Instituição.

Em 1886, ao receber de D. Pedro II o prêmio da Medalha de Prata em Ornatos, ouviu do imperador:

  “Vejo que o senhor progride. Isto me causa grande satisfação. 
Quando entra para a Academia”?



carta de agradecimento de Eliseu Visconti para Pereira Passos, 
em 3 de outubro de 1905, 
pelo convite para realizar obras de arte no Theatro Municipal


Emocionado por ter sido reconhecido pelo imperador, Visconti gagueja e não consegue agradecer a D. Pedro, nem lhe comunicar que já ingressara na Academia. Anos depois, o agradecimento veio em forma de homenagem, quando Visconti, já em plena República e mesmo sofrendo críticas, inclui a figura do imperador no pano de boca do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Inspirado na Ópera de Paris, a célebre Opera Garnier, e, a convite do prefeito Pereira Passos, realizou a que é considerada sua principal obra: a pintura da boca de cena e do foyer do Municipal, que está completando 110 anos neste mês. O pintor também faria 153 anos no dia 30 de julho deste ano. 


Pintando a boca de cena

A obra da boca de cena pronta


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Visconti no atelier da Rue Didot, com os painéis do Foyer

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 Painel central do Foyer

A foto abaixo, guardada com outros negativos de vidro, pela família, 

por cerca de 100 anos, revela uma foto inédita de Visconti, de 1915, 
sentado num andaime em seu atelier em Paris, diante da pintura do foyer.


VISCONTI NO ANDAIME COM O PAINEL CENTRAL DO FOYER - c.1915

Eliseu Visconti foi nosso vizinho ilustre em Copacabana. 

Ao retornar de Paris, onde frequentou a Academia Francesa de Belas Artes, gozando uma bolsa de estudos concedida por D. Pedro II, Visconti se instalou em uma chácara na Ladeira do Barroso, atual Ladeira dos Tabajaras, em Copacabana. 

Hoje, no local,  Ladeira dos Tabajaras, 155 -  esquina com a Travessa Santa Margarida encontra-se o Edifício Eliseu Visconti.





“Se o fim da arte é despertar a emoção alheia, 
que importam os meios de que o artista lançou 
mão para conseguir essa finalidade”! 


Visconti faleceu no Rio de Janeiro, no dia 15 de outubro de 1944, aos 78 anos de idade.

Uma curiosidade:

Em 2016, ano dos 150 anos de nascimento de Eliseu Visconti, a equipe do Theatro Municipal foi surpreendida com uma feliz descoberta: uma tela com dois metros de diâmetro, sem título atribuído e localizada no teto da antessala do Camarote do Governador.
Após intensas pesquisas na documentação do Theatro e, ao serem examinadas as correspondências de 1933 do então diretor do Municipal, Roberto Doyle Maia, veio a grande constatação: a autoria da obra é de Eliseu D'Angelo Visconti.








domingo, 16 de junho de 2019

AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA



  . Praia de Botafogo, 48 - Botafogo  


Resultado de imagem para aurelio buarque de holandaAo contrário do que se pensa, Aurélio não é pai nem tio de Chico Buarque, mas sim primo, pois sua mãe era irmã de Cristóvão Buarque de Holanda.

Aurélio Buarque de Holanda (1910-1989 )virou sinônimo de dicionário. Seu sucesso transcendeu à sua morte e o nome "Aurélio" significa dicionário. Em 1941 executou um trabalho lexicográfico, colaborando com o Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa. Daí em diante, tornou-se um dicionarista de inquestionável sucesso, tanto que para referir-se a dicionário, todos dizem simplesmente "Aurélio".
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Escritor, lexicógrafo, tradutor, filólogo e crítico, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira nasceu em Passo de Camaragibe, Alagoas, em 1910, onde iniciou seus estudos e seu interesse pela língua e literatura portuguesas. Embora formado em Direito pela Universidade do Recife, dedicou-se ao magistério, lecionando português, francês e literatura nos colégios Anglo-Americano e Pedro II, na Fundação Getúlio Vargas e no Instituto Rio Branco.

Paralelamente à sua dedicação aos dicionários, Aurélio Buarque de Holanda escreveu, organizou e colaborou na publicação de várias obras, além de traduzir diversos autores consagrados, como Charles Baudelaire, Gustave Flaubert, Pablo Neruda, entre outros.

De seu livro de contos e crônicas “Dois Mundos”, publicado em 1942 e premiado pela Academia Brasileira de Letras em 1944, destaca-se o antológico “O Chapéu de Meu Pai”, traduzido em vários idiomas.

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“Meus olhos se cravam no chapéu. Está no cabide tal como meu Pai o usava - quebrado para a frente - o chapéu marrom, comum, de abas debruadas, o chapéu de meu Pai.

O chapéu fica sozinho, até o dia seguinte, pois geralmente meu Pai não sai de casa à noite de uns tempos para cá. A gente olha o porta-chapéus e adquire a certeza de que o dono da casa não saiu. Não é só porque vê o chapéu: é porque vê a pessoa. Se nos descuidarmos, diremos, apontando o chapéu: - Olhe Seu Manuel ali."

Contratado pelo Ministério das Relações Exteriores, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1938 e, de 1947 a 1960, foi responsável pela seção “O Conto da Semana”, no Suplemento Literário do Diário de Notícias do Rio de Janeiro, com a colaboração do amigo Paulo Rónai.

Com Paulo Rónai, Aurélio organizou e traduziu os dez volumes da coleção Mar de Histórias, antologia do conto mundial, que teve seu primeiro volume publicado em 1945. Participou, entre 1944-49, da Associação Brasileira de Escritores, foi membro da Academia Brasileira de Filologia, do Pen Clube do Brasil, do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, da Academia Alagoana de Letras e da Hispanic Society of America. A partir de 1950, foi responsável pela seção "Enriqueça seu Vocabulário", da revista Seleções, do Reader's Digest. Oito anos depois, todos os seus artigos foram reunidos em um livro, que levaria o mesmo nome.

Aurélio Buarque de Holanda foi nosso vizinho ilustre
à Praia de Botafogo, 48 




Em 1961, foi eleito para ocupar a cadeira número 30 da Academia Brasileira de Letras e, em 1986, recebeu o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano, concedido pela Câmara Brasileira do Livro.







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Casado desde 1945 com Marina Baird (foto ao lado), sua fiel colaboradora, Aurélio Buarque de Holanda faleceu no Rio de Janeiro, no dia 28 de fevereiro de 1989. 













quarta-feira, 12 de junho de 2019

LINDA BATISTA


  . Rua Barata Ribeiro, 625 - Copacabana  


Linda Batista (1919-1988) - Florinda Grandino de Oliveira fez muito sucesso como cantora entre os anos 1930 e 1950, mas sucumbiu às mudanças ocorridas no cenário musical na década de 1960. Irmã de outro mito radiofônico, Dircinha Batista, Linda era querida pela alta sociedade e pelos intelectuais, autêntica representante da fase áurea do rádio carioca.


No próximo dia 14 de junho 
comemora-se seu centenário. 

Nasceu em São Paulo, por exigência da avó, que era paulista e muito supersticiosa. Mas cresceu e estudou nos melhores colégios religiosos do Rio de Janeiro. Aos 10 anos começou a aprender violão com o cantor Patrício Teixeira e acompanhava a irmã em apresentações na Casa do Estudante. Aos 17 anos,  por um mal estar, desmaio, de Dircinha, substituiu-a, estreando como cantora no programa que Francisco Alves fazia na Rádio Cajuti, interpretando Malandro, de Claudionor Cruz.  Obteve sucesso, sendo convidada para outras apresentações nessa emissora. Assim começava sua carreira.


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As irmãs Batista, Linda à direita.

Tornou-se crooner da orquestra de Kolman, no Cassino da Urca - onde sucedeu Carmen Miranda, apresentando-se três vezes por noite -  e, em 1937 foi eleita pela 1ª vez Rainha do Rádio, título que manteve por onze anos consecutivos. Em 1938, pela Odeon, lançou seu 1º disco.

Foi atração dos programas de auditório de César de Alencar e Manoel Barcellos. Com um grito de guerra — "Ôba!" — entrava no palco para deliciar seus fãs com sucessos de autores que lançou, como Lupicínio Rodrigues. "Vingança", dele, foi gravada ao final de uma paixão de Linda que durou 15 anos, e "Risque", um presente do amigo Ary Barroso, para quem ela comprou um piano.



Imagem relacionadaCantora predileta do presidente Getúlio Vargas  - na foto ao lado com  Linda e Hermínio Belo de Carvalho - frequentava assiduamente o Palácio do Catete. Ele a chamava de "patrimônio nacional".  Diziam até que seria sua amante. Nunca essa história foi confirmada por ela, apesar da intimidade aparente entre os dois.

Também recebeu da UBC e da SBACEM o troféu Noel Rosa, por gravar exclusivamente música brasileira.

Foi uma das maiores cantoras do samba-canção, fez 29 filmes e excursões ao exterior de muito sucesso com a nossa música, um dos símbolos de uma época de ouro, embalando noitadas regadas a champagne francês e despertando centenas de paixões com seu jeito irreverente, a boca vermelha e "vestidos longos, bordados de canutilhos."


Mas foi se afastando a partir dos anos 1960 das atividades artísticas. E só gravou músicas de carnaval, como o sucesso Quero morrer no Carnaval, de Eurico Campos e Luiz Antônio, em 1961.




Na década de 70, o mercado de discos transformou-se , vozes como as das irmãs Batista perderam a vez. Ainda em 1984, Linda se apresentou no Circo Voador no show "Vozes do Brasil", cantando com Ademilde Fonseca, Moreira da Silva e Isaurinha Garcia. Na ocasião, anunciou que pretendia lançar sua autobiografia, "Catete 317".

Mas depois de tantas glórias, viveu tempos muito difíceis ao lado das irmãs Dircinha e Odete, após a morte de sua mãe, Dona Neném, em 1975. Estrelas da música brasileira na década de 30, esquecidas pelo público foram se desfazendo do patrimônio para o sustento. Três apartamentos foram vendidos, a coleção de joias e os casacos de pele tiveram o mesmo destino.

Linda Batista foi nossa vizinha ilustre em Copacabana na Rua Barata Ribeiro 625, para onde mudou com a mãe e as irmãs em 1953.



Linda Batista voltou ao noticiário em 1985, comovendo todo o país: médicos, bombeiros e policiais a tiraram à força do apartamento de Copacabana, - juntamento com as irmãs Dircinha e Odete - depois que Linda, durante um surto psicótico, tentou agredi-las. Após três meses de internação e tratamento médico, mais magra e livre do alcoolismo e da depressão, Linda deixou a clínica. Depois de recuperadas, no entanto,as irmãs decidiram viver em reclusão absoluta, confinando-se no apartamento da Rua Barata Ribeiro, que já abrigara 200 convidados para feijoadas nos fins de semana dos tempos áureos.

Linda Batista  morreu na madrugada de 17 de abril de 1988, vítima de embolia pulmonar, aos 68 anos, no Hospital Evangélico, na Tijuca.


"'Linda morreu de tristeza, 
abandonada e na miséria".
palavras da cantora Marlene


Uma peça de 1998 - Somos Irmãs - foi grande sucesso nos palcos e uma homenagem às Irmãs Batista (Linda e Dircinha). Estreou em 27 de março no Centro Cultural Banco do Brasil e transferiu-se em julho para o Teatro Ginástico, mantendo sempre lotação esgotada. Nos papéis principais, Suely Franco e Nicette Bruno.


Curiosidades

Em reportagem de 4 de julho de 1983,  





declarou




sábado, 1 de junho de 2019

ANTÔNIO HOUAISS



  . Av Epitácio Pessoa, 4560 - Lagoa  



Resultado de imagem para antonio houaissAntônio Houaiss (1915 - 1999) foi um multifacetado. Filólogo, linguista, crítico, lexicógrafo, tradutor, perito-contador, gastrônomo, ensaísta, polígrafo, professor, biólogo, diplomata, enciclopedista, acadêmico.  Nasceu no Rio de Janeiro, o quinto dos sete filhos de imigrantes libaneses maronitas. Mas Antônio Houaiss é conhecido mesmo como filólogo.

Os que com ele conviveram sempre des tacam que desde a juventude, todo o saber, a cultura humanística mesclada com generosidade e afeto, conjunto de qualidades sempre ampliadas a cada momento de sua vida, ele compartilhava com os próximos, e nunca, por saber mais, quis impor ideias políticas aos discípulos. 


Por ocasião do centenário de Antonio Houaiss em 2015, o acadêmico Eduardo Portela falou que

"...temos o dever de homenageá-lo enquanto escritor, enquanto crítico literário, e enquanto referência cidadã. 
Ele soube ser um cidadão brasileiro." 

Uma das facetas mais lembradas de Houaiss é a tradução de Ulisses, de James Joyce. Ele transpôs para o nosso idioma a magia verbal do grande autor irlandês, quarenta e dois anos após a publicação do original. Todas as particularidades léxicas do estilo joyceano poderiam assustar, e até inibir, aqueles que pensassem em verter a obra para a língua portuguesa. Mas este não foi o caso de Antônio Houaiss, que cumpriu a tarefa em menos de um ano.

Certa vez disse que

"A cultura é tudo o que a humanidade faz 
dentro de um contexto: 
é transmissão, é produção e também é performância, 
tudo ao mesmo tempo. 
A nossa cultura está sendo impotente 
para a modernidade."

Jamais abdicou de suas ideias de homem de esquerda, mas nunca quis impor ideias políticas aos discípulos.  Em 1951  ele e outros jovens diplomatas – entre os quais João Cabral de Melo Neto – foram demitidos do Itamaraty sob acusação de organizarem na Casa de Rio Branco uma célula do PCB. Houve pressão diplomática do governo de Portugal, à época chefiado pelo ditador Salazar, por ter sido ele o diplomata encarregado de ler na Assembleia da ONU a nota brasileira contra a política colonialista de Portugal na África e na Ásia. Em 1964, foi aposentado, e seus direitos políticos foram cassados por dez anos. Na realidade, o socialismo foi a  primeira e única opção política.  Fascinado por ele e um radical, acreditava  que ele continuava sendo "a condição para a sobrevivência da humanidade", mesmo depois da queda do muro de Berlim.

 Houaiss fez um dicionário histórico, isto é, um dicionário que procurou acompanhar o vocábulo desde a sua primeira datação. "O Dicionário do Aurélio saiu eminentemente literário, exemplificando as acepções dos seus itens lexicais com textos extraídos da nossa literatura".  Os dois dicionários se completam .

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Colaborou na imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo, tendo sido redator do Correio da Manhã (1964-1965).
Na carreira diplomática, por concurso de provas em 1945, foi vice-cônsul do Consulado Geral do Brasil em Genebra (1947 a 1949), servindo também como secretário da delegação permanente do Brasil em Genebra, junto à Organização das Nações Unidas

Coube a Antônio Houaiss, importante técnico e conhecedor da língua a tarefa de criar as regras para a Comissão Machado de Assis que representou à preservação da memória da literatura clássica brasileira.  Foi o quinto ocupante da cadeira 17, da Academia Brasileira de Letras, eleito em 1º de abril de 1971, na sucessão de Álvaro Lins, e recebido pelo acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco em 27 de agosto de 1971.

Antônio Houaiss casou-se em 1942 com Ruth Marques de Salles e não teve filhos. A esposa faleceu em 1988, e ele quase 11 anos depois.
 Foi nosso vizinho ilustre na Av Epitácio Pessoa, 4560 apartamento 1302 , na Lagoa.




Curiosidades

A gastronomia era uma paixão de Antônio Houaiss. 


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Estudava com carinho as diversas variedades da comida brasileira, considerada por ele como um dos itens culturais. A partir dessa relação com a boa culinária, escreveu os livros Magia da cozinha Receitas rápidas 81 receitas de (até) 18 minutos, resultado de suas experiências como cozinheiro. Ficaram famosas as reuniões que promovia, onde se degustavam pratos atraentes e saborosos, com destaque para uma das suas especialidades: a moqueca capixaba.

Ele se gabava de ter a capacidade de fazer diversos pratos ao mesmo tempo, para atender dezenas de pessoas, sem nenhuma ajuda, e com um diferencial de fazer inveja a uma dona de casa ou aos chefs de grandes restaurantes: deixava a cozinha limpíssima.

. Antônio Houaiss era um apreciador da cerveja 

Resultado de imagem para a cerveja e seus mistério livroPara eternizar essa relação, nos legou o livro A cerveja e seus 
mistérios, contando a história da bebida desde os seus primórdios até chegar aos tempos modernos.

Mas ele fazia questão de deixar bem claro: no sentido estrito – até por disposições legais inequívocas : só é cerveja a bebida elaborada com malte, água, lúpulo e levedo.


quarta-feira, 15 de maio de 2019

JOSÉ OLYMPIO


  . Rua  da Glória, 122 - Glória  

A trajetória desse grande editor brasileiro, José Olympio Pereira Filho, nascido em Batatais,  interior de São Paulo, o primeiro de 9 irmãos, foi diferenciada.
Segundo Rachel de Queiroz, que teve diversos livros editados por José Olympio (1902 - 1990),  ele agia não só como editor - o melhor de seu tempo - mas também como um pai ou irmão, que sabia dos problemas de seus editados e se tornava amigo íntimo.

De desempacotador de livros na Casa Garraux, em 1918, José Olympio levou cerca de uma década e meia para se tornar o editor mais influente do país. Excepcional talento, intuitivo e inteligente, de boa conversa, estava sempre disponível para ouvir os amigos e colaboradores. Para escolher os títulos que publicava, declarou certa vez que se pautava pelo instinto. Mas também dava muitos palpites na área comercial e de propaganda. Gostava de correr riscos. Em parte, o seu sucesso pode ser explicado muito por essa característica, aliada a uma grande capacidade de trabalho e de relacionamento pessoal.

Decidido a começar o próprio negócio, ele foi ajudado por alguns amigos, antes de abrir no Rio de Janeiro, em 1931, a sua primeira livraria, localizada na Rua da Quitanda. Três anos depois, quando iniciou de fato a atividade de editor, o estabelecimento passou a funcionar em endereço nobre, quase em frente à famosa Livraria Garnier, que fechou em seguida. Ousado e dotado da energia típica dos trinta anos, José Olympio sabia muito bem aonde queria chegar. E foi capaz de lances certeiros para alcançar seus objetivos.

O sucesso inicial veio com a obra de Humberto de Campos, logo seguida do êxito alcançado pelos "romancistas do Nordeste", com destaque para José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Raquel de Queiroz. Em paralelo à ficção, o ano de 1936 marca o lançamento da coleção "Documentos Brasileiros", coordenada por Gilberto Freyre e que se tornou uma referência para a intelectualidade nacional. Reinvestindo os lucros, a editora obteve, durante a primeira década, a marca de quase 600 títulos produzidos, com mais de 2,2 milhões de exemplares vendidos, e a maioria expressiva do catálogo era formada por autores brasileiros.

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José Lins do Rego, Carlos Drummond de Andrade, Candido Portinari, 
José Olympio e Manuel Bandeira


José Olympio entrega exemplar de livro a Getúlio Vargas
  

A importância de José Olympio foi de tal ordem, que o crítico literário Antonio Candido  referiu-se a ele como um "herói cultural" da época.

José Olympio esteve no centro do sistema literário do seu tempo. 

Além de publicar a produção ficcional dos autores principais da editora, ele também solicitava traduções e encomendava textos, mantendo uma rede de colaboradores de alta qualidade e servindo de modelo para as outras empresas. Era também agressivo na promoção dos livros, ocupando-se das contracapas das publicações, mas também com bons investimentos em anúncios de revistas e jornais.

A partir de 1964, a editora foi aos poucos perdendo o fôlego. Apostou em lances de maior risco. Decidiu investir no ramo dos livros didáticos, à custa de altos investimentos, e encantou-se com a possibilidade de ter a Editora Sabiá incorporada ao seu catálogo. Mas, dessa vez, o jogo virou e ele teve de amargar prejuízos significativos. Sua capacidade de administrador certamente não se igualava à intuição editorial, e o resultado alcançado com essas duas operações não foi dos melhores. Deixou de ser a principal protagonista na veiculação das nossas letras, papel que veio a compartilhar com a Civilização Brasileira, sob a coordenação de Ênio Silveira, e em 1974, a editora foi incorporada pelo BNDES e, posteriormente, vendida e descaracterizada. Atualmente seu nome é usado por um dos selos editoriais associados ao Grupo Record.

A história da livraria na Rua do Ouvidor 110 é, na realidade, a descrição de uma época de ouro na vida intelectual do Rio de Janeiro dos anos 1930. muitos dos principais intelectuais brasileiros se encontravam no Rio de Janeiro e colaboravam com José Olympio, formando o círculo de boas conversas que se instalou na Livraria.


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"Uma vez por semana, reunia todo mundo para bater papo. Era como um chá da Academia Brasileira de Letras, só que informal."

José Olympio foi casado com Vera Pacheco Jordão durante 10 anos, teve 2 filhos: Vera Maria Teixeira e Geraldo Jordão Pereira,(também editor, já falecido, fundador da editora Sextante).

Foi nosso vizinho ilustre no bairro da Glória, 
em um apartamento alugado no 9° andar, na Rua da Glória, 122, 
esquina com a Rua Conde Lages, de frente para o Parque do Flamengo,
onde viveu 40 anos - até sua morte - após sua separação.




A Biblioteca Nacional recebeu mais de 6 mil itens que pertenciam ao acervo pessoal de José Olympio: livros e provas, originais, manuscritos e documentos de autores como Guimarães Rosa, José Lins do Rego, Cassiano Ricardo, Luis Fernando Verissimo e José Honório Rodrigues. Doado por seu filho, Geraldo Jordão Pereira, e pela família de Humberto Gregori, penúltimo proprietário da editora . Além dos livros, o acervo inclui 11 arquivos com 43 gavetas. Nas pilhas de papéis, estão preciosidades como provas com correções manuscritas de Manuel Bandeira. Há ainda capas, fotos de festas de lançamento e ilustrações usadas em publicações, além de grande quantidade de documentos, notícias antigas de jornais sobre a editora, dedicatórias feitas pelos escritores e também correspondência particular.

José Olympio o menino que só fez o primário, que dias antes de completar 29 anos abriu a Livraria José Olympio Editora, apostou na literatura nacional num momento em que o Brasil não era a bola da vez, e os temas relevantes vinham de Paris, deixou sua marca indelével na história editorial brasileira.

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quarta-feira, 1 de maio de 2019

JOSÉ DE ALENCAR



Hoje, 1º de maio de 2019
se vivo fosse, 
José de Alencar (1829-1877) 
estaria completando 190 anos.  



Resultado de imagem para jose de alencarJosé de Alencar foi nosso vizinho ilustre na Tijuca, na chácara Castelo, na Floresta da Tijuca. Um palacete inglês, branco e luxuoso, com jardins exuberantes e pontes de mármore erguido em meio à mata.

Principal escritor brasileiro da fase romântica, José de Alencar foi também dramaturgo, jornalista, advogado e político, sendo considerado um dos maiores representantes da corrente literária indianista. As principais obras indianistas em prosa de nossa literatura são os três romances de José de Alencar: “O Guarani”, “Iracema” e “Ubirajara”.

O escritor destacou-se no cenário cultural brasileiro com a publicação do romance "O Guarani", em forma de folhetim, no Diário do Rio de Janeiro, em 1857, que alcançou enorme sucesso e serviu de inspiração ao músico Carlos Gomes para compor a ópera “O Guarani”.

Além de indianista, José de Alencar escreveu também romances históricos, regionalistas e urbanos.
O primeiro romance histórico de nossa literatura foi “As Minas de Prata”. Escreveu ainda: “A Guerra dos Mascates”, narrativa da famosa revolução de 1710.
Entre os romances regionalistas destacam-se “O Sertanejo” e o “Gaúcho”, que reproduzem costumes típicos e folclóricos dessas regiões.
Os romances urbanos caracterizam a Corte e o meio social carioca do Segundo Reinado, como: “A Viuvinha”, “Senhora”, “Lucíola” e “Encarnação”.
Como poeta, José de Alencar escreveu “Os Filhos de Tupã”, poema indianista. E como teatrólogo destacam-se as comédias “Verso e Reverso”, “O Demônio Familiar” e “As Asas de um Anjo”.

José Martiniano de Alencar Júnior nasceu em Messejana, no Ceará, no dia 1 de maio de 1829, filho do senador do Império José Martiniano de Alencar. Aos nove anos mudou-se com a família para o Rio de Janeiro e, aos 14, foi para São Paulo, onde concluiu o secundário e ingressou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.

Impressionado com o sucesso do livro “A Moreninha” de Joaquim Manuel de Macedo, resolveu que seria escritor, interrompendo os estudos universitários e iniciando a leitura dos autores clássicos da época, como Alexandre Dumas, Balzac, Byron, entre outros.

Aos 18 anos, começou a escrever seu primeiro romance "Os Contrabandistas", que permaneceu inacabado. No ano seguinte, seguiu para Pernambuco, onde concluiu seu curso de direito na Faculdade de Direito de Olinda. De volta a São Paulo, levou o esboço de dois romances históricos: “Alma de Lázaro” e “O Ermitão da Glória”, que só seriam publicados no fim de sua vida.

Retornando ao Rio em 1851, José de Alencar exerceu a advocacia e, em 1854, ingressou no Correio Mercantil, na seção "Ao Correr da Pena", comentando os acontecimentos sociais, as estreias de peças teatrais, os novos livros e as questões políticas. No ano seguinte, assumiu as funções de gerente e redator–chefe do "Diário do Rio", onde publicou, em folhetim, seu primeiro romance "Cinco Minutos. No dia 1 de janeiro de 1857, começou a publicar o romance "O Guarani", em forma de folhetim, logo a seguir editado em livro.

Primeira edição do livro O Guarani   

Em 1858, José de Alencar abandonou o jornalismo e ingressou no Ministério da Justiça, recebendo o título de Conselheiro do Império, iniciando, ao mesmo tempo, sua carreira universitária como Professor de Direito Mercantil. Com a morte do pai, entrou para a política, pelo partido Conservador, elegendo-se deputado pelo Ceará, reeleito por quatro legislaturas. Defendia um governo forte e propunha uma abolição gradativa da escravatura. Embora D. Pedro II não simpatizasse com Alencar, não se opôs a sua escolha para o Ministério da Justiça do Império.

Caricatura de José de Alencar, quando ministro da Justiça. (Em Revista Ba-Ta-Clan, 29/8/1868)

Em 1870 foi eleito senador pelo Ceará; porém, com os conflitos com o Ministro da Marinha não foi o escolhido. Voltou para a Câmara, onde permaneceu até 1877, rompido com o partido Conservador.


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Assinatura de José de Alencar

Mesmo no auge da carreira política, José de Alencar não abandonou a literatura. Viu suas obras atacadas por jornalistas e críticos. Triste e desiludido, passou a publicar sob o pseudônimo de Sênio. Durante toda sua vida procurou trazer para os livros as tradições, a história, a vida rural e urbana do Brasil. Famoso, a ponto de ser escolhido por Machado de Assis para patrono da Cadeira nº. 23 da Academia Brasileira de Letras, José de Alencar morreu aos 48 anos, no dia 12 de dezembro de 1877, no Rio de Janeiro, vítima da tuberculose.

Curiosidades:

1. chácara Castelo foi propriedade do sogro de José de Alencar, Dr. Thomas Cochrane, médico britânico, um dos introdutores da Homeopatia no Brasil. Alencar foi casado com a filha mais velha do médico, Georgiana Augusta e tinha o dobro de sua idade. Ali residiu algum tempo e "escreveu alguns dos seus livros, entre os quais: Sonhos de Ouro e o Sertanejo. Consta ainda que aí ele recebeu a visita de Castro Alves, recém-chegado da Bahia, que lhe trouxe uma carta de recomendação" , segundo nos contou historiador Gastão Cruls no livro “Aparência do Rio de Janeiro”, publicado em 1949.

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 Hoje, o palacete é residência oficial do prefeito da cidade do Rio de Janeiro – no
Alto da Boa Vista, na Estrada da Gávea Pequena, s/n – pois, em 1916, juntamente com parte das terras, foi vendido à prefeitura do Distrito Federal por quarenta contos de réis. 

2. José de Alencar e sua prima distante e conterrânea Rachel de Queiroz foram tema do enredo de 2019 da Escola de Samba União da Ilha do Governador.