domingo, 1 de dezembro de 2019

ARACY DE ALMEIDA



 Rua  Almeida Bastos, 294 - Encantado   





Se Aracy dava voz ao sentimento feminino e era a intérprete ideal da sofisticação poética que Noel levou ao samba, ela também não descuidava da malandragem, que definia como “fuleiragem”. Ela dizia: “Eu era uma xavante”, “Eu sou a maior fuleiragem que existe”.

Considerada, ao lado de Marília Batista, uma das melhores intérpretes de Noel Rosa, é a própria Aracy quem conta seu primeiro encontro com Noel:

“Quando fui cantar no rádio pela primeira vez, levada por Custódio Mesquita, ao passar na varanda da Educadora, vi Noel. Estava sentado e ali continuou. Não deu bola nenhuma pra mim. Quando terminei de cantar ao microfone ele se aproximou: ‘Gostei muito, você cantou muito bem. De onde você é?”

Tratada por amigos pelo apelido de "Araca", Noel Rosa a definiu, em 1933, numa entrevista a Orestes Barbosa, para "A Hora":



"Aracy de Almeida é a pessoa Resultado de imagem para aracy de almeida
que interpreta com exatidão o que eu produzo".


Menina pobre, desde os tempos de criança sonhava em ser cantora de rádio, o que acabou acontecendo a partir de seu encontro com o compositor Custódio Mesquita, para quem cantou "Bom dia, meu amor", de Joubert de Carvalho e Olegário Mariano.

Nascida no Encantado, bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, seu pai, Baltasar Teles de Almeida, era chefe de trens da Central do Brasil. Ainda jovem, cantava no coro da igreja Batista da qual seu irmão Alcides era pastor.

Cantava samba, mas era apreciadora de música clássica e se interessava por leituras de psicanálise, além de ter em sua casa quadros de importantes pintores brasileiros como Aldemir Martins e Di Cavalcanti. Os que conviviam com ela, na intimidade ou profissionalmente, a viam como uma mulher lida e esclarecida.


Com o fechamento dos cassinos, desapareceram os grandes espetáculos, com orquestras, corpo de baile e músicas apropriadas para um público maior. Começaram a pipocar, em Copacabana, as pequenas boates onde as canções intimistas de Noel encontraram um porto ideal para desembarcar de uma vez por todas. E quem cantava as suas músicas? Aracy.

E o jogo mudou também para ela. A antiga fuleira, que Noel apresentou à boemia barra pesada carioca, malandros e marginais, agora andava com intelectuais, cronistas e jornalistas. De 1948 a 1952, ela virou atração para o público rico da boate Vogue. Entoando a obra de seu mentor, e trazendo à luz músicas inéditas dele, os suburbanos Aracy e Noel conquistaram, definitivamente, a Zona Sul. 


A longa temporada na boate Vogue resultou num dos primeiros álbuns que hoje seriam chamados de “conceituais” da fonografia nacional: da primeira à última faixa, formando um todo, Aracy canta Noel. Com apresentação caprichada, arranjos de Radamés Gnattali, capa de Di Cavalcanti, o disco se tornou um sucesso imediato e jogou Aracy para o topo da parada de sucessos.








Em 1959, outra capa antológica para Aracy de Almeida, de Aldemir Martins, para LP em que canta sambas inéditos de Noel Rosa.

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Em uma entrevista, Vinicius de Moraes relembrou o tempo em que a conhecera:


Resultado de imagem para vinicius de Moraes e Aracy de Almeida“A partir de 1951 nos tornamos amigos. Ela saía sempre com o nosso grupo de boemia, que por essa época se constituía de Antônio Maria, Fernando Lobo, Paulo Soledade, Dorival Caymmi e uns quantos mais aderentes variáveis. Foi a época áurea da boate Vogue, do falecido barão Von Stuckart, onde Antônio Maria trabalhou uns tempos como relações-públicas. Na boca da madrugada, púnhamos Aracy no ‘seu táxi’ (pois ela tinha um praticamente a seu serviço) e lá partia ela para a sua casa no Encantado...Dois anos depois, eu lhe daria meu primeiro samba para gravar: o samba-canção, com música de Antônio Maria, “Quando tu passas por mim”.




Em 1952, Aracy declarou à Revista do Rádio: 


“Não gosto de viajar. Por isto não fico rica, pois o que dá mais dinheiro no rádio são as excursões. Não acredito no dia de amanhã, vivo no presente. Gosto de assistir e atuar em televisão. Não gosto de rádio. Meu ideal era ser funcionária pública, para ter horário de trabalhar, pois em rádio não se tem horário. Por isto é que digo: os barnabés é que são felizes”.


Consagrada pelo radialista César Ladeira com o apelido de “O Samba em Pessoa”, Aracy de Almeida nunca foi bonita. Desbocada e masculinizada, não atraía muito os homens. Já os seus principais amigos eram todos homens, como Antônio Maria, Vinicius, Fernando Lobo, Clóvis Graciano, Di Cavalcanti, Carlão Mesquita e Aldemir Martins. Também se dava bem com gays, como o estilista Denner e o cantor Murilinho de Almeida.


Denner foi o criador do modelo pelo qual ela viria a ser conhecida: calça comprida, porque ela já não ficava bem em vestidos; bota ortopédica, pois ela tinha pés chatos; e camisas da Vigotex, que a associavam ao imaginário psicodélico, reforçado pelo cabelo black power e os óculos de armação grossa.


Apesar de sua aparência, desde o final dos anos 50, Aracy levava a tiracolo o namorado Capita, que, segundo seus amigos, era muito discreto. Em 1962, de acordo com um documento do Ministério da Guerra, o Capita era o coronel-médico reformado Henrique Leopoldo Pfefferkor, falecido em 1990, dois anos após a morte da cantora.

Abelardo Barbosa, o Chacrinha, conheceu a cantora em 1941, quando era locutor na Rádio Tupi: “Moramos durante cinco anos no mesmo hotel, em São Paulo, e frequentamos o mesmo trem que nos levava para lá. Ela começou como jurada no meu programa”.


Aracy, numa de suas últimas entrevistas, ao dramaturgo Antônio Bivar, em 1986, explicou melhor: 
“Eu não tinha essa mania de ser jurada, não. Quem me botou foi o Paulinho de Carvalho. Eu fui fazer uma entrevista com a Hebe Camargo, e as besteiras que eu disse fizeram tanto sucesso, que eu tomei conta do programa. Então ele falou comigo: - Ora, Aracy, você não quer fazer um programa de calouro aqui na Record? Foi quando eu disse que não queria ser dona do programa, eu queria trabalhar como jurado. Então ele me botou naquele programa É Proibido Colocar Cartazes, com o Pagano Sobrinho”.



Em 1968, a pedido da própria Aracy, Caetano Veloso compôs uma música para ela, “A voz do morto”. Ela a gravou, num compacto-simples, para a Bienal do Samba de São Paulo daquele ano. O morto, claro, era Noel Rosa. Não se sabe por que, a música foi proibida pela censura, e ficou praticamente desconhecida.





Aracy morreu em 1988 e já não era mais a artista querida de amigos influentes e interessantes, apesar de ser jurada no show de calouros de Silvio Santos. Autêntica, ela acompanhou a evolução do tempo, sempre falando o que pensava. Foi o que a fez se manter viva como cantora na década seguinte. E, num certo sentido, pelo resto da vida. Afinal ela encarnava como jurada o papel da especialista no passado da música popular brasileira. O que pouca gente se lembra é que ela sempre foi uma mulher do futuro. 



A cantora dos versos mais tristes do samba e marchinhas surreais foi enterrada numa véspera de São João. Milhares de pessoas cantaram “Não me diga adeus” (de Luiz Soberano, J. C. da Silva e Paquito), seu grande sucesso de 1948.


Mas poucos, além do próprio Caetano Veloso, presente ao enterro, sabiam os últimos versos feitos para ela:


Eu canto com o mundo que roda,
mesmo do lado de fora,
mesmo que eu não cante agora,
ninguém me atende, ninguém me chama,
mas ninguém me entende, ninguém me engana,
eu sou valente, eu sou o samba,
a voz do morto, atrás do muro,
a vez de tudo, a paz do mundo,
na Glória.



Curiosidade



Artista com fama de "sapatão", Aracy viveu com o goleiro do Vasco da Gama, time de seu coração, de 1938 a 1942. Ela mesma atestou, num formulário da Previdência, aos 25 anos: “estado civil, casada; nome do esposo: José Fontana”.

Conhecido como Rey, o goleiro disse que, certo dia, em casa, começou a encerar o chão para se exercitar – Aracy estava fora – quando batem à porta. Ele atendeu e deparou com o incansável (e pouco confiável) David Nasser, que queria mostrar uma música para a cantora. O jogador, que foi também goleiro da seleção, disse que se o compositor encerasse toda a casa, Aracy gravaria a música. Nasser empunhou o escovão e, em duas horas, o chão brilhava. Quando chegou em casa, Aracy se surpreendeu com o belo trabalho. Rey contou a história, defendeu Nasser, e Aracy gravou “Com razão ou sem razão”.

O que se dizia é que Rey decidia o que Aracy gravava naqueles tempos. Ou pelo menos foi o que achou David Nasser.









2 comentários:

Marcelo Cavalcante disse...

Fui buscar nos acervos do Jornal "O Globo" e "Jornal do Brasil", que estão na internet, a notícia da morte de Noel Rosa, no dia seguinte à sua morte. No "O Globo", havia uma nota pequena e no "Jornal do Brasil", nem uma mísera notícia. Nem nos dias seguintes. Provavelmente, só depois de sua morte, Noel Rosa ganhou o reconhecimento que merecia.

Anônimo disse...

Sim, como você afirmou, caro Marcelo "Noel Rosa ganhou o reconhecimento que merecia"...

E esse acontecimento se deve à grande Aracy de Almeida que imortalizou a obra do Poeta da Vila.

Alvissaras à Arquiduquesa do Encantado! Viva Aracy de Almeida, a fenomenal cantora que imortalizou o canto das dores femininas. com beleza e maestria!!!

R.David