sábado, 1 de abril de 2017

MILLÔR FERNANDES



 . Avenida Vieira Souto, 594, cobertura -Ipanema  


Resultado de imagem para millôr fernandesDesenhista, tradutor, jornalista, roteirista de cinema e dramaturgo, Millôr Fernandes (1924-2012)  foi um raro artista que obteve grande sucesso, de crítica e público.

Millôr sempre fez piada em relação ao seu registro de nascimento. Costumava brincar que percebeu somente aos 17 anos que o seu nome havia sido escrito errado na certidão: onde deveria estar Milton, leu “Millôr” (o corte da letra “t” confundia-se com um acento circunflexo, e o “n” com um “r”). Seja como for, gostou do novo nome e o adotaria a partir de então. “Milton nunca foi uma boa escolha”, comentaria anos mais tarde, durante uma entrevista. A data de nascimento também não estaria correta: em vez de 27 de maio de 1924, ele teria nascido em 16 de agosto do ano anterior.


Seu pai, engenheiro emigrante da Espanha, morreu em 1925, com apenas 36 anos. A família começou então a passar dificuldades e sua mãe lutou bravamente para poder sustentar os quatro filhos. Apesar do aperto, Millôr teve uma infância feliz, ao lado de dez tios, 42 primos e primas e da avó italiana Concetta de Napole Viola. A chegada ao Brasil das histórias em quadrinhos, em 1934, fazem Millôr dar vazão à criatividade e, sob a influência de seu tio Antônio Viola, tem seu primeiro trabalho publicado em um órgão da imprensa -  O Jornal, do Rio de Janeiro -  tendo recebido o pagamento de dez mil réis.

Em mais de meio século de atuação permanente na imprensa, no teatro, na literatura e nas artes plásticas tornou-se uma das maiores personalidades de seu tempo. Combativo (“hay gobierno, soy contra”) como poucos, praticou o ideal de independência intelectual, tendo sido perseguido pelas ditaduras que assolaram o país. Escreveu, traduziu e adaptou mais de uma centena de peças de teatro (Shakespeare, Pirandello, Molière, Racine, Brecht, Tchekov, Gorki, Fassbinder e muitos outros). Dentre as peças de sua autoria destacam-se Liberdade, liberdade (com Flávio Rangel), É..., Homem do princípio ao fim, Flávia, cabeça, tronco e membros, Um elefante no caos e Os órfãos de Jânio. Escreveu ainda 30 anos de mim mesmo, O livro vermelho dos pensamentos de Millôr, Todo o homem é minha caça, Tempo e contratempo, Poesias, Millôr definitivo – A Bíblia do Caos, entre dezenas de outros livros editados.

De 1930 a 1935, Millôr estudou na Escola Ennes de Souza, por ele chamada de Universidade do Meyer, mas que na verdade era uma escola pública. Diz dever tudo o que sabe a sua professora, Isabel Mendes, depois diretora e hoje nome da escola. Emociona-se ao falar sobre ela "uma mulatinha magra e devotada, que me ensinou tudo que se deve aprender de um professor ou de uma escola: gostar de estudar. Depois disso, pode-se ser autodidata. Escola, a não ser para campos técnicos-experimentais, é praticamente inútil”.

Após a morte da mãe, em 1935, também aos 36 anos, os irmãos Fernandes enfrentaram ainda maiores dificuldades.

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 Em 1938, foi contratado pelo Dr. Luiz Gonzaga da Cruz Magalhães Pinto para entregar o remédio para os rins "Urokava" em farmácias e drogarias. Durou pouco esse emprego. Logo ingressou na pequena revista O Cruzeiro, atuando como contínuo e repaginador. A redação nessa época tinha, além de Millôr, mais dois funcionários: um diretor e um paginador. Anos mais tarde, O Cruzeiro chegou a vender mais de 750 mil exemplares semanais. Ciente da necessidade de se aprimorar, Millôr ingressa no Liceu de Artes e Ofícios e sua carreira no jornalismo decola.

Em 1944 já é co-diretor da revista A Cigarra e, em 1945, inicia a publicação da coluna "Pif-Paf", em O Cruzeiro.

A partir de 1950, faz colaboração diária no jornal Diário da Noite. 


No jornal Tribuna da Imprensa, Millôr trabalhou apenas sete dias. Foi demitido por ter escrito um artigo sobre a corrupção na imprensa. Os editores, o poeta Mário Faustino e o jornalista Paulo Francis pediram também demissão em solidariedade.

Em 1963, com a publicação da matéria "Esta é a Verdadeira História do Paraíso", doze páginas em cores, o jornalista provoca a ira da própria revista e de leitores católicos e encerra sua carreira em O Cruzeiro. A partir de 1964, e até 1974, colabora semanalmente no jornal Diário Popular, de Portugal. A página mereceria um comentário especial do ditador Oliveira Salazar: "Este gajo tem piada. Pena que escreva tão mal o português”.

Sua passagem pela TV foi também marcada pela censura: Juscelino Kubitschek, o mais liberal de todos nossos ex-presidentes, censurou seu programa "Lições de um Ignorante". Saiu do ar após uma crítica à primeira dama do país: "Dona Sarah Kubitschek chegou ontem ao Brasil depois de cinco meses de viagem à Europa e foi condecorada com a Ordem do Mérito do Trabalho”. 

Considerado pelo crítico e poeta Fausto Cunha "um dos poucos escritores universais que possuímos", Millôr Fernandes atuou nos principais veículos de comunicação do Brasil, como o Correio da Manhã, revista Diners, revista Veja, O Pasquim, revista Isto É, Jornal do Brasil, O Dia, Folha de São Paulo e Correio Brasiliense, entre outros.

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Embora carioca do Méier, o edifício que leva uma placa com seu nome fica em Ipanema. 
Foi nosso vizinho ilustre na cobertura da Avenida Vieira Souto 594 , esquina com a Rua Aníbal de Mendonça. E como gostava de coberturas, em uma outra cobertura, na Rua Gomes Carneiro, teve seu escritório.


Homenageado pela Escola de Samba Acadêmicos do Sossego, de Niterói, em 1983, Millôr foi um dos precursores do frescobol na praia de Ipanema.

Millôr morreu em 27 de março de 2012, aos 88 anos, no Rio.



Curiosidade 

É de autoria do arquiteto Paulo Casé o painel que ficará na portaria do prédio da Vieira Souto, onde Millôr viveu por 30 anos. A obra mostra a figura do escritor dizendo: “Eu morei aqui”. 


“ Consultei vários livros de sua autoria e montei um painel, utilizando desenhos e letras que ele fez”, disse Casé.






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