UM ENDEREÇO, UMA VIDA, UMA HISTÓRIA.
Os endereços de personalidades brasileiras ou estrangeiras que moraram na cidade do Rio de Janeiro, ao longo dos tempos.
Carioca, Newton Mendonça - Newton Ferreira de Mendonça - (1927/1960) foi importantíssimo para o surgimento da Bossa Nova.Aluno de piano mais constante do maestro Villa-Lobos, começou sua trajetória como pianista de orquestra e de boate.
Teve sua primeira música gravada, Você Morreu Pra Mim, parceria com Fernando Lobo, gravada pela sambista Dora Lopes.
“No final da década de quarenta, a música
de Newton Mendonça já era muito diferente daquela que se fazia à época. Uma
nova estrutura harmônica integrava-se a uma melodia bela e surpreendente ...
efeitos inéditos... Era o prenúncio de uma nova
música, de uma revolução que se conforma e eclode no final dos anos 50: a Bossa
Nova.”
Marcelo Câmara (livro CAMINHOS CRUZADOS)
Da amizade com Tom Jobim surgiu uma das parcerias que mais se destacaram naquela época, renovando o ambiente musical existente e criando uma nova linguagem, que denominariam mais tarde como Bossa Nova. Tom e Newton, não tinham noção da proporção que iria tomar aquelas belas horas de descontração dos dois pianistas. O início dessa história começa em 1957, com a música Foi a Noite, na voz de Agostinho dos Santos, considerado por alguns especialistas como marco inicial da Bossa Nova.
Newton Mendonça nasceu no bairro do Cachambi, à Rua Capitão Rezende, 78, morou na infância em Todos os Santos, na Rua José Bonifácio, 44 e mudou-se na adolescência para a zona Sul. Morou em Botafogo, Copacabana e no bairro que marcou sua vida: Ipanema.
Newton Mendonça foi nosso vizinho ilustre de Ipanema, na Rua Nascimento Silva , na RuaBarão da Torre e depois na Rua Prudente de Moraes, 1033,apartamento onde compôs grande parte de sua obra. No atual prédio desse endereço tem uma placa.
Newton Mendonça compôs 40 músicas e quase todas foram sucesso. Formou com Tom Jobim o par perfeito em harmonia, melodia e inspiração: a dupla " New-Tom". E com ela veio Meditação, Caminhos Cruzados, Discussão, Só Saudade, Samba de Uma Nota Só, Desafinado, Incerteza, Teu castigo, Perdido nos teus olhos, Luar e batucada, Brigas, Domingo azul do mar, Tristeza, Sem você, e por aí vai...
Como Newton ouvia muito jazz e música erudita, entendia que a margem para improvisos nesse ritmo novo que surgia, era importante e podia ficar lindo. Samba de Uma Nota Só, é um exemplo disso. Tão simples que Tom não acreditava que fosse dar certo.
Newton tem mais de quinze canções sem parceiros, dentre elas: Canção do Azul, Seu Amor Você, O Tempo Não Desfaz, Nuvem, Canção do Pescador- que ganhou o troféu Noel de Ouro, primeiro lugar na Festa da Música Popular, em 1960, no balneário paulista do Guarujá. Festival precursor do modelo de festivais que as TVs Excelsior e Record fariam.
E há ainda 9 canções inéditas com Vinicius de Moraes e por volta de 20 canções com Tom Jobim.
O músico morreu aos 33 anos em 1960, sem ver o sucesso mundial da Bossa Nova.
Curiosidade
No filme Desafinados, produzido em 2006 e dirigido por Walter Lima Jr.,o ator Rodrigo Santoro abre com uma música inédita, QUERO VOCÊ, não editada (porém autorizada), de Newton Mendonça e Tom Jobim.
. Rua Constant Ramos , 30 - Copacabana Aníbal Augusto Sardinha , músico que ganhou o apelido de Garoto (1915 – 1955)porque já tocava na rádio como “moleque do banjo” e “garoto do banjo”, quando tinha ainda 11 anos.
Quando se fala em Garoto, lembra-se logo do autor deGente Humilde e Duas Contas. Mas ele foi muito mais que isso.
Já no início da carreira, nos anos 1930, nos Estados Unidos passou a acompanhar, como convidado, Carmen Miranda e o Bando da Lua. (Garoto, primeiroà esquerda, em pé).
Gravou com Carmen e pra ela destacam-se os arranjos para as músicas South American Way , Touradas em Madri, O que é que a baiana tem?
Nos EUA, Garoto foi ouvido por ilustres músicos americanos, como Duke Ellington, Art Tatum e Jesse Crawford, que o chamou de “O Homem dos Dedos de Ouro”.
Com seu conjunto vocal e instrumental chamado Garoto e Seus Garotos, acompanhou diversos artistas como Ciro Monteiro, Dircinha Batista, Aracy de Almeida, Orlando Silva e Francisco Alves; tocou com a pianista Carolina Cardoso de Menezes, participou com seu violão dos dois primeiros discos de Luiz Gonzaga, até a partir de 1942, iniciar o período mais fértil da sua vida artística, estreando na Rádio Nacional.
A participação de Garoto na Rádio Nacional foi intensa: além de atuar em Um Milhão de Melodias como integrante da orquestra e, muitas vezes, como solista, tinha os próprios programas: Garoto e seus Instrumentos e Garoto e Seus Solos. Além disso, integrava a Orquestra All Stars, dirigida pelo maestro Carioca, apelido de Ivan Paulo.
Seu violão se tornou marcante.
"Foi ele quem primeiro adotou no violão
os acordes dissonantes
com os chamados intervalos de sétima maior,
nona e décima terceira,
assim como os intervalos aumentados,
que tanto se popularizaram no
Brasil a partir da Bossa Nova."
Baden Powell, Raphael Rabello, Paulo Bellinati, Yamandu Costa e Marcus Tardelli, só para citar alguns dos maiores violonistas brasileiros, consideraram Garoto como o pai do violão moderno, o reformulador da linguagem harmônica do violão.
Formou o conjunto Bossa Clube, depois o conjunto Clube da Bossa que se apresentavam na Rádio Nacional, sendo o Clube da Bossa às terças-feiras às 17:45, oferecendo aos seus ouvintes uma série de arranjos modernos,e, como crooner exclusivo, Lúcio Alves.
Nos anos 1950, Garoto conviveu intensamente com alguns dos nomes que se destacaram na Bossa Nova. Luiz Bonfá, Dick Farney, o quarteto vocal Os Cariocas,Tom Jobim, Billy Blanco, Dolores Duran, Johnny Alf, Sylvia Telles, Candinho, Luiz Eça, Chico Feitosa e Carlos Lyra eram admiradores de Garoto, de suas harmonias inovadoras e de suas composições que prenunciavam aquele movimento.
Paulista de nascimento, foi criado no subúrbio de Lins de Vasconcelos, morou em Braz de Pina, e depois migrou para a Zona Sul. Foi nosso vizinho ilustre de Copacabana, na Rua Constant Ramos 30 apartamento 1002.
“Quando apresento esta obra no exterior, todos perguntam se é minha e em que ano a fiz. Sem esconder, digo que foi produzida em 1923 pelo fenomenal gênio brasileiro das cordas, cujo nome artístico é Garoto. Não o conheci, mas Garoto, humildemente, suplico a sua benção. Quanto orgulho tenho de ser brasileiro, bem como da brasilidade musical de ser e interpretar um gênio das cordas, como foi você, Garoto!"
violonista Yamandu Costa
Curiosidade
A parceria com Manuel Bandeira.
O jornal Última Hora, em edição de 02/05/1955, véspera da morte de Garoto, deu a seguinte nota, com o título “Garoto vai gravar”:“Garoto, o do violão (São Paulo Quatrocentão), vai gravar, dentro de poucos dias, duas novas músicas na Odeon. Trata-se, de um lado, de Tema e Variações, de Manuel Bandeira e, do outro lado, Ausência, de Edna Savaget.”
A inusitada parceria entre Bandeira e Garoto aconteceu da seguinte maneira: numa reunião musical na casa de Fernando Tude de Souza, então diretor da Rádio Ministério da Educação, o violonista encontrou o poema de Manuel Bandeira, Tema e Variações, numa das páginas da revista Café Society.
Sentindo-se tocado pelo poema, Garoto o musicou em menos de meia hora. Em uma das reuniões do Clube dos Amigos do Samba, realizada no Automóvel Clube do Brasil, Garoto fez uma gravação desta música para oferecer ao poeta
(“Bandeira sambista”, Correio da Manhã, 26/03/1955, Flagrantes).
Durval Ferreira (1935- 2007) - Durval Inácio Ferreira - carioca de nascimento, foi arranjador, instrumentista e compositor. Autodidata, começou a aprender violão com a mãe, que tocava bandolim, passando a estudar sozinho o instrumento, até entrar em contato com músicos do quilate de João Donato, Luís Eça, Johnny Alf, Herbie Mann e Tom Jobim, que ajudaram a lapidar seu talento.
Apresentou-se pela primeira vez ao público, em 1959, no Liceu Franco-Brasileiro, e, no ano seguinte, no famoso espetáculo do anfiteatro da Faculdade de Arquitetura da Praia Vermelha, “A Noite do Amor, do Sorriso e da Flor”, considerado por Ricardo Cravo Albim como o primeiro registro de um festival de bossa nova, quando teve como companheiros de cena, dentre outros, Luiz Carlos Vinhas, Roberto Menescal, Hélcio Milito, Nara Leão, Nana e Dori Caymmi, Norma Benguel e Os Cariocas. Estava dado o tom de sua carreira: embora não tão famoso como os outros componentes mais conhecidos da bossa nova, Durval Ferreira foi um notável músico e compositor.
Nascido em Pilares - bairro da Zona Norte carioca bem distanciado da orla e origem atípica de um destaque bossa-novista - criado na Vila Isabel de Noel Rosa e Johnny Alf, Durval Ferreira foi nosso vizinho ilustre do bairro de Laranjeiras. Morou no 6° andar do bloco C, da Rua São Salvador 59, edifício em frente à praça.
E morando na Praça São Salvador, em Laranjeiras, conheceu o gaitista Maurício Einhorn, que o introduziu no mundo do jazz e com ele assinou grandes clássicos da Bossa-Nova.
Sua primeira composição, Sambop, em parceria com Maurício Einhorn, data de 1958, gravada por Claudete Soares em 60, no LP “Nova Geração em Ritmo de Samba”, pelo selo Copacabana.
Nessa época, criou seu primeiro conjunto para acompanhar a cantora Leny Andrade.
O grupo tinha Durval Ferreira, na guitarra; Octavio Bailly Jr., no baixo; Pedro Paulo, no trumpete; Paulo Moura, no sax alto e Dom Um Romão, na bateria.
Em 1962, integrou o conjunto de Ed Lincoln e, como guitarrista, tocou no Sexteto Bossa Rio, de Sérgio Mendes, durante o Festival de Bossa Nova, do Carnegie Hall em Nova Iorque.
Empunhando o violão, participou ainda de gravações do conjunto Tamba Trio e do conjunto “Os Gatos” - Durval Ferreira (violão), Neco (violão), Eumir Deodato (teclados), Paulo Moura (sax alto), Copinha (flauta), Meirelles (flauta), Edson Maciel (trombone), Norato (trombone), Maurício Einhorn (gaita), Maurílio Santos (trompete) e Wilson das Neves (bateria). - com os quais gravou sua composição “E nada mais”, em parceria com Lula Freire, incluída no LP Os Gatos,1964.
Durval tem inúmeras composições gravadas por artistas brasileiros e norte-americanos, destacando-se “Batida Diferente”, em parceria com Maurício Einhorn, gravada por Roberto Menescal e pelo Tamba Trio, além de várias outras gravações no Brasil e no exterior.
Compôs a trilha sonora do filme “Estranho Triângulo”, direção de Pedro Camargo, e participou, em 1968, do III Festival Internacional da Canção, da TV Globo, com a música “Rua d'Aurora”, interpretada por Fátima e Tibério Gaspar, tendo participado, como jurado, dos III e IV Festivais Internacionais da Canção.
Seus maiores sucessos foram compostos em parceria com o gaitista Maurício Einhorn: “Tristeza de Nós Dois”, incluindo na parceria Bebeto, gravada por Sérgio Mendes; também “Estamos Aí”, com Maurício Einhorn e Regina Werneck, lançada por Leny Andrade, no antológico show Gemini V e “Nuvem”, com o mesmo parceiro, gravada pelo conjunto Os Gatos.
Durval Ferreira, injustamente um dos menos festejados compositores da bossa nova, morreu no Rio aos 72 anos, em junho de 2007, três anos depois de gravar seu primeiro disco-solo, no qual incluiu algumas de suas mais belas e célebres canções. Pra muitos ele é considerado um precursor da "batida diferente" da bossa nova, por ter distanciado do samba convencional e se aproximado do que viria em seguida.
Nara Leão ( 1942-1989) foi nossa vizinha ilustre de Copacabana eseu apartamento considerado o berço da bossa-nova.Nascida em Vitória, Nara veio ainda criança para o Rio de Janeiro com sua família, indo morar na Avenida Atlântica 2856, no famoso apartamento onde, mais tarde, passaram a se reunir os jovens que criaram o movimento.
Extremamente tímida, Nara desistiu de aprender acordeom, instrumento da moda na época, para se dedicar ao violão, sob os cuidados de Roberto Menescal.
Nara e seus novos amigos, trazidos por Roberto Menescal, como Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra e João Gilberto, entre outros, começaram a se reunir em sua casa para buscar ritmos diferentes e fazer uma nova música. Estava definido o ponto de encontro dos artistas que criaram a bossa-nova. Nara Leão tornou-se, então, a musa do movimento.
Com o aumento do interesse pelo novo ritmo, as apresentações nos apartamentos ficaram pequenas. Assim, começaram as apresentações em universidades e boates.
Em 1963, estreou profissionalmente no musical “Pobre Menina Rica”, de Vinícius de Moraes e Carlos Lyra. Apesar da superprodução, o espetáculo não fez o sucesso esperado, que só aconteceu com o lançamento do seu primeiro disco, em 1964, onde Nara surpreendeu com o resgate de músicas de compositores como Cartola e Nelson Cavaquinho, e de músicas engajadas, fugindo da temática da bossa-nova.
A menina tímida, que tinha medo do palco, tornou-se uma mulher com opiniões firmes e contestadoras, chegando a atacar os militares em pleno regime militar:
"Os militares podem entender de canhão
ou de metralhadora,
mas não 'pescam' nada de política",
disse a cantora em uma entrevista em 1966.
Apesar de o então presidente, Arthur da Costa e Silva, querer enquadrá-la na Lei de Segurança Nacional, uma legião de intelectuais saiu em sua defesa, entre eles o poeta Carlos Drummond de Andrade.
Nara lançou vários compositores e inúmeras músicas ganharam fama em sua voz de pequeno alcance como "Pedro Pedreiro", "Olê Olá" (ambas de Chico Buarque), "Maria Moita" (Carlos Lyra / Vinicius), "Corisco" (Sergio Ricardo/ Glauber Rocha), "Esse Mundo É Meu" (Sergio Ricardo), "Maria Joana", "Pede Passagem" (Sidney Miller), "Recado" (Casquinha/ Paulinho da Viola), "Coisas do Mundo, Minha Nega" (Paulinho da Viola), "João e Maria" (Sivuca / Chico Buarque), "Com Açúcar, com Afeto" (Chico Buarque), "Apanhei-te Cavaquinho" (Ernesto Nazareth / Nara Leão), além de praticamente todos os clássicos da bossa nova.
O emblemático álbum de 1964, pela gravadora Elenco
Foi com a “A Banda”, de Chico Buarque, que Nara ganhou o II Festival de Música Popular Brasileira, em 1966.
Ao lado de João do Vale e Zé Kéti, a cantora foi a estrela do show Opinião, escrito por Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa e Paulo Pontes, um dos mais aclamados da MPB. Por problemas de saúde, foi substituída por Maria Bethânia. Em seguida, estreou o espetáculo 'Liberdade, Liberdade', que foi censurado, permanecendo pouco tempo em cartaz.
Após um tempo no exílio na Itália e na França, casada com o cineasta Cacá Diegues, Nara teve sua primeira filha, Isabel, e retornou ao Brasil, onde teve o seu segundo filho, Francisco. Nesta fase, dedicou-se quase que exclusivamente aos filhos e ao curso de Psicologia na PUC.
Nara Leão retomou aos poucos sua carreira, cantando com amigos e fazendo shows por todo mundo, principalmente no Japão, onde fazia muito sucesso. Aos 47 anos, na manhã de 7 de junho de 1989, a cantora faleceu devido a um tumor inoperável no cérebro.
Curiosidades:
Em sua estreia, Nara ficou tão nervosa que se apresentou de costas para o público.
Nara Leão foi uma das primeiras cantoras consagradas a apoiar a Tropicália, o movimento musical que revelou grandes nomes como Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Seu grande parceiro e amigo Roberto Menescal compôs a linda canção Nara, em sua homenagem, juntamente com a compositora Joyce.
Marlene (1922-2014), estrela da era do rádio no Brasil, foi um dos maiores mitos desse tempo. Gravou mais de quatro mil canções em sua carreira, e virou lenda sua rivalidade com a cantora Emilinha Borba.
Marlene tornou-se a mais querida da Aeronáutica - Emilinha era a preferida da Marinha - e tinha o aposto É a Maior. Seus fãs mais ardorosos criaram a Associação Marlenista (Amar),nos anos 1950, que desde então guardou tudo que diz respeito à cantora.
Marlene, nome artístico de Victória Martino Bonaiuti, depois Martino Bonaiuti Delfino dos Santos, adotou o nome artístico em homenagem à atriz alemã Marlene Dietrich.
Em 1943, partiu para o Rio de Janeiro, onde, após ser aprovada no teste com Vicente Paiva, passou a cantar no Cassino Icaraí, em Niterói. Ali permaneceu por dois meses até conhecer Carlos Machado, que a convidou para o Cassino da Urca, contratando-a como vocalista de sua orquestra.
Em 1946, houve a proibição dos jogos de azar e o fechamento dos cassinos por decreto do presidente Eurico Gaspar Dutra. Marlene, então, mudou-se com a orquestra de Carlos Machado para a Boate Casablanca. Dois anos depois, tornou-se artista do Copacabana Palace a convite de Caribé da Rocha, que a promoveu de crooner a estrela da casa.
Marlene lançou seu primeiro disco, um 78 rotações com os sambas Swing no Morro e Ginga Ginga, Morena, em 1946. Estreou no programaCésar de Alencar, na Rádio Nacional, com grande sucesso, em 1948 e no ano seguinte, eleita Rainha do Rádio, passou a ser cantora exclusiva do programa Manuel Barcelos, também da Rádio Nacional. Ainda nesse ano, gravou dois de seus maiores sucessos, acompanhada d'Os Cariocas, Severino Araújo e Orquestra Tabajara: os baiões Macapá e Que nem jiló (Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga).
A partir de 1956 gravou mais de 30 LPs e mais de 60 sucessos, alguns clássicos, como Lata d'Água, Zé Marmita, Sapato de Pobre, Mora na Filosofia,
Se é pecado Sambar, Tome Polca, Apito no Samba.
Cena do filme "Tudo Azul", dos anos 1950, com Marlene, A Maior, cantando Lata dágua de Luiz Antonio e Jota Jr. A Incomparável está ao lado do ator Luiz Delfino, na época seu esposo.
Foi das poucas artistas brasileiras que não perdeu público quando a televisão surgiu, nos anos 50, nem foi relegada quando a Bossa Nova, a Jovem Guarda e o Tropicalismo mudaram os padrões da música brasileira. Na televisão, Marlene participou de novelas como "Chiquinha Gonzaga" (1999), "Viver a vida" (1984), "O amor é nosso" (1981), "Bandeira 2" (1971). No cinema, participou de filmes como "Profissão mulher" (1982), "A volta do filho pródigo" (1978), "Balança, mas não cai" (1953), "Pif-Paf .... Maria" (1945) e "Corações sem piloto" (1944).
Nos anos 1950,cumpriu temporada de quatro meses no Teatro Olympia, em Paris, a convite da cantora Edith Piaf (foto à esquerda) , que a conheceu no Rio. e dela disse:
"Carnavalesca, mas dramática. Completa !
Chamada de capa da revista O CRUZEIRO, sobre a turnê, dizia:"Marlene, rainha do samba, com tamborim e pandeiro faz carnaval em Paris"
Marlene foi casada com o ator Luis Delfino e teve um filho, Sergio Henrique. Foi Nossa Vizinha Ilustre de Copacabana, morou no edifício Vitória Régia, na Avenida N.S. de Copacabana 484, esquina com a Rua Paula Freitas. No final da vida, mudou-se para Rua Siqueira Campos. E também, no bairro da Urca, na mesma rua em morou Carmem Miranda, na Avenida São Sebastião 2.
Marlene "foi uma cantora do rádio que conseguiu se renovar. Uma das poucas que transgrediram – não só pelo repertório, mas também pelo estilo”, afirma o pesquisador Rodrigo Faour.
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) poeta, escritor, jornalista, cronista e tradutor brasileiro, considerado por muitos o mais influente poeta brasileiro do século XX. Foi um dos principais poetas da segunda geração do Modernismo brasileiro.
Nascido em uma família de fazendeiros de Itabira MG, em 31 de outubro de 1902, Drummond iniciou seus estudos em sua cidade natal, rumando depois para Belo Horizonte para o Colégio Anchieta de Nova Friburgo, de onde foi expulso por "insubordinação mental", após um incidente com seu professor de português.
Por pressão de sua família, cursou farmácia em Ouro Preto, casando-se ao término do curso com Dolores Dutra de Moraes. Entretanto, não exerceu esta profissão, fundando, em 1925, com outros escritores, "A Revista", que, embora tenha tido somente três edições, foi importante para a afirmação do movimento modernista em Minas Gerais.
Convidado por Gustavo Capanema exerceu a chefia de gabinete do Ministério da Educação até 1945. Com a saída de Capanema do governo, deixou o ministério e assumiu o cargo de editor da “Imprensa Popular”, jornal comunista de Luiz Carlos Prestes, de onde se afastou poucos meses depois, por discordar da orientação editorial do jornal. Foi então chamado para trabalhar no Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN), onde permaneceu até se aposentar em 1962.
Além de ser considerado um dos maiores poetas brasileiros, Drummond brilhou também no jornalismo como cronista - “Correio da Manhã”, a partir de 1954, e “Jornal do Brasil”, de 1969 até 1984 - como radialista - colaborou com os programas "Vozes da Cidade", da Rádio Roquete Pinto e "Cadeira de Balanço" da Rádio Ministério da Educação - e como tradutor de famosos autores como Balzac, Laclos, Proust, García Lorca, Mauriac e Molière.
Primeira crônica no Correio da Manhã, sobre a falta de água no Rio.
Do início de suas primeiras obras - “Alguma Poesia”, publicada em 1929, numa edição de 500 exemplares, paga por ele mesmo, e “Brejo das Almas”, de 1934 - até o derradeiro poema, em 31 de janeiro de 1987 ,"Elegia a um Tucano Morto", que integrou "Farewell", último livro organizado pelo poeta, escreveu textos marcantes. Seus temas eram preferencialmente o indivíduo, a terra natal, a família e as vivências de menino, os amigos, o choque social e a violência humana, o amor e a própria poesia. Foram consideradas suas principais obras"Claro Enigma", "Contos de Aprendiz", "A Mesa", "Passeios na Ilha", "Viola de Bolso", "Fazendeiro do Ar"; "Poesia até Agora", "Viola de Bolso Novamente Encordoada", "Fala, Amendoeira" e "Ciclo", além de “Rio de Janeiro em Prosa &Verso” (em colaboração com Manuel Bandeira) e “Reunião (10 Livros de Poesia”), "Tempo, Vida, Poesia" e 21 poemas para "Bandeira, a Vida Inteira", edição comemorativa do centenário de Manuel Bandeira. Passando por três obras primas: “Sentimento do Mundo” (1940), “José” (1942) e “Rosa do Povo” (1945).
Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro, no dia 17 de agosto de 1987, aos 85 anos, poucos dias após a morte de sua filha única em Buenos Aires, a cronista Maria Julieta Drummond de Andrade.
Drummond foi nosso vizinho ilustre de Copacabana, bairro que fez morada desde que chegou ao Rio nos anos 1930. Primeiro na Rua Joaquim Nabuco, nº 81, onde residiu 36 anos, até 1962, quando a casa foi demolida.
Na segunda residência ficou até o fim da vida, no apartamento 701 do Edifício Luiz Felipe, da Rua Conselheiro Lafayete, 60, na divisa com Ipanema.
Ali trabalhava a partir das nove da manhã depois de ler os jornais, com sua Olivetti Studio, depois uma Remington, com uma passagem breve por uma máquina elétrica e cercado por estante com muitos livros
Também foi homenageado pelo carnaval carioca: o poeta deu o título de campeã à Estação Primeira da Mangueira com o samba-enredo “No Reino das Palavras”, em 1987.
Sua estátua, inspirada em sua foto, está localizada na Praia de Copacabana, no mesmo banco que costumava ficar, e está sempre cercada por admiradores e turistas.
Frases e ditos de Drummond:
“Os bolsos dos poetas só servem para guardar poesias.”
“Os homens distinguem-se pelo que fazem, as mulheres pelo que levam os homens a fazer”.
”Ninguém é igual a ninguém. Todo ser humano é um estranho ímpar”.
"Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?
"A dominante é a individualidade do autor,
poeta da ordem e da consolidação,
ainda que sempre,
e fecundamente, contraditórias."
Em tempo: Há 90 anos, em 1928, Carlos Drummond de Andrade publicava na "Revista de Antropofagia" o poema "No Meio do Caminho", que ficou conhecido como "o poema da pedra" e que chocou a crítica literária da época.
Sergio Marcus Rangel Porto - Sergio Porto (1923-1968) - cronista carioca dos melhores, começou sua carreira jornalística no final dos anos 40, depois da passagem pelo Banco do Brasil, e alcançou a fama por seu senso de humor refinado e a crítica mordaz aos costumes.
Além de jornalista se descrevia como "marido, pescador, colecionador de discos (só samba do bom e jazz tocado por negro, além de clássicos), ex-atleta...".
Sobrinho de Lúcio Rangel, pelas mãos do tio começou a escrever na revista Sombra, e depois alçou vôo próprio nos jornais Última Hora, Tribuna da Imprensa e Diário Carioca e também na revista Manchete. Sérgio Porto atuou como redator de programas humorísticos, tanto no rádio e televisão, quanto no teatro. Entre estas participações se destacam os shows escritos juntamente com Nestor do Holanda e Antonio Maria para atores cômicos como Ronald Golias e Chico Anísio, que então iniciavam suas carreiras na televisão. O mais famoso desses shows foi, certamente, Times Square, na TV Rio.
Inspirado no colunista Jacinto de Thormes, pseudônimo de Maneco Muller, precursor do colunismo social no Brasil e criador da listas das As Dez Mais Elegantes, Sergio Porto, criou Stanislaw Ponte Preta e também "As Certinhas do Lalau", onde cada edição falava de uma musa da temporada. Tudo começou ao ser solicitado para substituir o colunista do jornal ele se recusou, mas aceitou a sugestão, dada por Otto Maria Carpeaux, de usar um pseudônimo para comentar os fatos do dia de maneira crítica, ou mesmo cômica. Inicialmente pensou em Serafim Ponte Grande, o protagonista do livro homônimo de Oswald de Andrade.
Daí chegou à solução que até hoje habita o imaginário de quem teve o prazer de ler suas colunas e livros: Stanislaw Ponte Preta como o sobrinho de Tia Zulmira, a anciã do casarão da Boca do Mato, primo do nefando Altamirando e do distraído Rosamundo. Com essa criação, Sérgio, Stanislaw, entrou para o jornalismo como um dos mais mordazes críticos das mazelas de nosso país.
Este seu alter ego, Stanislaw Ponte Preta , o filho que se tornou mais celebre que o pai, nasceu no início da década de 50, na Última Hora. Sérgio, com seu enorme senso de ridículo, era um feroz opositor das chamadas colunas sociais, as precursoras das revistas de famosos da atualidade.
Muitas vedetes e atrizes foram eleitas "certinhas" pela pena do jornalista, como Anilza Leoni, Diana Morel, Rose Rondelli, Maria Pompeo, Irma Alvarez, Carmen Verônica, Zélia Hoffman , dentre 142 selecionadas, de 1954 a 1968.
Sempre muito modesto, mas com seu maravilhoso e imbatível senso de humor, se auto-intitulava “introdutor da grossura na filosofia humorística”. Lançou o FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País, que tinha como característica simular as notas jornalísticas, parecendo noticiário sério. Era uma forma de criticar a repressão militar. Em um deles noticiou a decisão da ditadura militar de mandar prender o autor grego Sófocles, que morreu há séculos, por causa do conteúdo subversivo de uma peça encenada na ocasião.
Amava os livros e os discos, milhares, que ouvia às vezes enquanto trabalhava, atendendo ao telefone a todo instante, recebendo amigos, contando piadas, e continuando a batucar na máquina, insistindo para que o visitante ficasse, sob a afirmação (verdadeira) de que estava acostumado a escrever no meio da maior confusão.
Era um mestre das frases :
. "Quem dá aos pobres e empresta, adeus!"
. "Mais duro do que nádega de estátua"
. "Em rio de piranha jacaré nada de costas."
. "Mais inútil do que um vice-presidente."
. “Televisão é uma máquina de fazer doidos”
. "Mais por fora do que umbigo de vedete."
. "No Brasil as coisas acontecem, mas depois,
com um simples desmentido, deixaram de acontecer."
Em 1966 compôs o Samba do Crioulo Doido, uma sátira para o Teatro de Revista, em que procurava ironizar a obrigatoriedade imposta às escolas de samba de retratarem nos seus sambas de enredo somente fatos históricos. A composição fez parte do musical Pussy Pussy Cats, uma peça de teatro rebolado escrita por Sérgio Porto, produzido por Carlos Machado. Hoje, a expressão do título é usada, no Brasil, para se referir a coisas sem sentido, a textos mirabolantes e sem nexo.
Outra grande contribuição de Sérgio Porto para a música brasileira foi a redescoberta de Cartola.
No ano de 1957, Cartola havia desaparecido e trabalhava como lavador de carros e vigia de um edifício no bairro de Ipanema. Então, foi reconhecido por Sérgio, que começou a ajudar o músico a retornar aos palcos e retomar sua carreira.
Carioquíssmo, criado e Nosso Vizinho Ilustre em Copacabana, na rua Leopoldo Miguez, quando sua casa natal foi vendida para uma imobiliária, passou a morar em um apartamento no mesmo endereço, de número 53. Foi casado com Dirce Pimentel de Araújo, com quem teve três filhas: Gisela, Ângela e Solange ( foto acima)
Foto acima foi tirada em 22 de Maio de 1952 no calçadão da Praia do Leme.
O noivo Sergio Porto, a noiva Dirce,
de frente Fernando Sabino e de perfil Otto Lara Resende.
Casaram-se na Igreja Nossa Senhora do Rosário no Leme.
O prédio à Rua Leopoldo Miguez, 53
construído no mesmo local da casa da família de Sérgio Porto
e onde continuou a viver.
Uma curiosidade
No seu último caderninho de telefones só encontraram telefones de mulheres, de A a Z. Evidentemente os números não tinham a mesma finalidade.
Personagem de peso da história do Brasil do século XX, responsável por grandes mudanças na arte e na imprensa brasileiras,Assis Chateaubriand (1892-1968),Nosso Vizinho Ilustre de Copacabana, instalou-se no extinto Hotel dos Estrangeiros - na antiga Praça José de Alencar, no Catete - ao chegar ao Rio de Janeiro, transferindo-se, em 1924, para o Hotel Copacabana Palace e, finalmente, para aVila Normanda, situada na Avenida Atlântica, 2406, uma das mais belas mansões da cidade naquela época, adquirida da família Guinle. Hoje o local abriga um edifício que leva o mesmo nome: Vila Normanda.
...“era um casarão de pedra de três andares,
revestido de madeira entalhada à mão,
com um enorme gramado
e um bosque de coqueiros,
que dava um ar tropical à arquitetura
européia”.
Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, mais conhecido como Assis Chateaubriand ou Chatô, foi jornalista, empresário, mecenas e político, destacando-se como um dos homens públicos mais influentes do Brasil nas décadas de 1940 a 1960. Foi também advogado, professor de direito, escritor, embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras.
Nascido em Umbuzeiro, interior da Paraíba, Chateaubriand estudou no Ginásio Pernambucano, em Recife, até os 15 anos, quando ingressou na Faculdade de Direito, onde, mais tarde, lecionaria Filosofia do Direito Romano. Começou sua carreira jornalística, ainda estudante, escrevendo para os jornais "Gazeta do Norte”, “Jornal Pequeno” e “Diário de Pernambuco”.
Em 1915, mudou-se para o Rio de Janeiro, passando a colaborar com o "Correio da Manhã”. Em menos de uma década, assumiu a direção de "O Jornal", embrião da maior cadeia de imprensa do país. Chateaubriand tornou-se dono de um império jornalístico - Os Diários Associados: 34 jornais, 36 emissoras de rádio, uma agência de notícias, uma revista semanal ("O Cruzeiro"), uma mensal ("A Cigarra"), revistas infantis e uma editora.
Foi também pioneiro da televisão no Brasil, criando a TV Tupi em 1950. Os Diários Associados chegaram a possuir 18 estações de televisão.
Simpatizante da Aliança Liberal, Chateaubriand apoiou o movimento revolucionário de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder. Contudo, dois anos depois, seu apoio à Revolução Constitucionalista o levaria ao exílio.
Figura polêmica e controversa, odiado e temido, Chateaubriand foi chamado de Cidadão Kane brasileiro e acusado de falta de ética, por supostamente chantagear empresas que não anunciavam em seus veículos. Seu império teria sido construído com base em interesses e compromissos políticos, incluindo uma proximidade tumultuada e proveitosa com o Presidente Getúlio Vargas, de quem conseguiu a promulgação de uma lei que lhe deu direito à guarda de sua filha Teresa, a qual não teria reconhecido após o nascimento, fruto de um affair com uma jovem de 15 anos. Esta lei ficou conhecida como “Lei Teresoca”.
Com o lema "Deem asas ao Brasil”, lançou e promoveu a Campanha Nacional de Aviação, através da construção de aeroclubes e aeroportos no interior do país, embora fosse um dos representantes da emergente burguesia nacional, assumiu posições favoráveis ao capital estrangeiro.
Com seu espírito inquieto e empreendedor, fundou o Museu de Arte de São Paulo – MASP - em 1947, adquirindo na Europa do pós-guerra uma coleção de obras de grandes artistas europeus, graças à colaboração de Pietro Maria Bardi.
No Museu D´Orsay, em Paris, na exposição Portraits de Cezanne, está a pintura Portrait de madame Cézanne en rouge, comprada por Assis Chateaubruand para o MASP. De 200 pinturas expostas, esta é a única que está em um Museu da América do Sul.
Chatô ficou também conhecido por dar oportunidades e apoio a escritores e artistas desconhecidos em sua época, como Graça Aranha, Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Cândido Portinari.
Eleito senador pela Paraíba em 1952, e, em 1955, pelo Maranhão, renunciou ao mandato para assumir a embaixada do Brasil em Londres.
Foi o quarto ocupante da Cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 30 de dezembro de 1954, na sucessão de Getúlio Vargas. Entretanto, a maior parte de sua obra não se encontra publicada em livros, e, sim, dispersa em artigos para a imprensa.
Com o tempo, Chateaubriand foi dando menos importância aos jornais e voltando sua atenção para o rádio e a televisão, sempre investindo em novas tecnologias. Na década de 1960, porém, o maior império das telecomunicações do país estava endividado e Chatô sofre uma trombose que o deixa paralisado. Ele passa então a comunicar-se e publicar seus artigos através de uma máquina de escrever adaptada pela IBM.
Chateaubriand morreu em 1968 e foi velado ao lado de duas pinturas: um cardeal de Velázquez e um nu de Renoir, simbolizando, segundo Bardi, as três coisas que mais amou: o poder, a arte e a mulher.
Curiosidade:
Ao visitar Nova York, em 1946, para receber o prêmio de jornalismo Maria Moors Cabot, concedido pela Universidade de Columbia, Assis Chateaubriand foi fotografado pelo jornal The New York Times que o apresentou como “ o milionário dono de 28 jornais, 13 rádios, 3 revistas e uma agência de propaganda, uma espécie de Hearst brasileiro”.
João Saldanha jornalista, escritor e treinador de futebol brasileiro.
João Alves Jobim Saldanha nasceu em Alegrete, no estado do Rio Grande do Sul, no dia 3 de julho de 1917, e mudou-se para o Rio de Janeiro em 1934.
Neste 2017 comemoramos cem anos desse gaúcho-carioca!
João Saldanha da Portela, da Banda de Ipanema; de Noel Rosa e Luiz Carlos Prestes ; da praia de Copacabana, da Rua Miguel Lemos; primo por parte de mãe de Tom Jobim, do humor ácido, da crítica precisa, o João Sem Medo, como o apelidou Nelson Rodrigues
Atuou profissionalmente, como jogador, por alguns anos no Botafogo, mas abandonou a carreira e se graduou em jornalismo.
Incentivado por amigos e por sua esposa na época, Ruth (irmã do jornalista Ruy Viotti), aceitou o convite para fazer um teste para integrar a equipe da Rádio Guanabara (atual Bandeirantes AM), montada por Édson Leite. A partir daí, acumulou passagens marcantes pelas rádios Nacional, Globo, Tupi e Jornal do Brasil, TVs Rio, Manchete e Globo (onde apresentou seus comentários esportivos no programa Dois Minutos com João Saldanha) e assinou colunas nos jornais Última Hora, O Globo, Jornal do Brasil e revista Placar. Com toda sua experiência vivida no futebol, não media palavras ao criticar jogadores, treinadores e dirigentes, conquistando fãs e desafetos.
Em 1957, o Botafogo, contratou-o como seu técnico, apesar de sua total falta de experiência. O clube ganhou o campeonato estadual daquele ano, em uma final histórica, em que goleou o Fluminense por 6x2 num time que contava com Garrincha, Didi e Nilton Santos.
Em 1969, ele foi anunciado como novo treinador da seleção nacional.
Para a Copa do Mundo de 1970,formou um time-base em sua maioria por jogadores do Santos e do Botafogo, os melhores times da época e os conduziu a 100% de aproveitamento nos seis jogos Eliminatórias.Com As feras do Saldanha, expressão que surgiu de uma frase sua, quando teria dito que convocaria somente "feras", a seleção brasileira reconquistou a autoestima e a confiança do torcedor, que tinha perdido depois da pífia campanha na Copa do Mundo de 1966.
Por supostos desentendimentos com a comissão técnica sobre a condução dos treinamentos foi dispensado do comando da seleção meses antes do mundial, voltando ao jornalismo.
Considerado um dos maiores cronistas esportivos brasileiros, a expressão "Meus Amigos" tornou-se sua marca registrada, posto que iniciava seus comentários com ela.
Colecionou durante anos diversas histórias que não se negava a contar nas rodas de boêmios nos bares cariocas. De temperamento explosivo, chegou a correr armado atrás do goleiro Manga que o acusou de “gaveteiro”. Armado também ameaçou um farmacêutico que recusou-se a atender sua empregada.
Escreveu três livros onde relatava alguns desses fatos curiosos, na sua trajetória no esporte: “Meus amigos...”, “Os subterrâneos do futebol” e “Futebol e outras histórias”.
Durante a Copa de 90 se tornou um grande crítico do esquema apresentado pela seleção.Foi para a Itália com a saúde já debilitada, contrariando uma decisão médica. Demonstrava durante as transmissões na TV Manchete dificuldade para falar e para respirar. Assistiu chateado a eliminação brasileira para a Argentina. Comentando Itália x Argentina, no dia 03 de julho começou a se sentir mal e foi levado para o hospital. Morreu vítima de insuficiência respiratória aguda.
No dia seguinte à sua morte o jornalistaVillas Boas Corrêapublicou uma crônica em que disse
"O futebol brasileiro fica devendo a João Saldanha a paixão de toda uma vida consumida no fogo de alma indomável, iluminada por uma das mais lúcidas e prontas inteligências que conheci, a bravura do exemplo e de um tipo de coragem ... "
Uma estátua de João Saldanha existe na Calçada da Fama do Maracanã. Em tamanho natural, a obra tem a assinatura do cartunista Ique. Saldanha foi casado quatro vezes e deixou quatro filhos Vera, Sônia, Ruth e Joãozinho. Curiosidade Rápido e inteligente nas palavras, cunhou frases inesquecíveis, como
“Se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária seria campeão invicto.”
“Quando o presidente Médici formou o gabinete dele, não me consultou; de modo que para formar o meu time, não preciso perguntar a ele.”
“Meu time é formado por onze feras. É preciso desafrescalhar essa história de canarinhos.”
“Pelé é para o futebol brasileiro o que Shakespeare é para a literatura inglesa.”
“Quatro homens, um ao lado do outro, só em parada militar.”
“Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminaria empatado.”
“Campo de futebol não é loteamento. Ninguém é dono de lote, de posição fixa.”
sábado, 1 de julho de 2017
O blog tem como tema em JULHO, duas importantes comemorações: 125 ANOS DO BAIRRO DE COPACABANA e 100 ANOS DE JOÃO SALDANHA
NOSSOS VIZINHOS ILUSTRES DE JULHO
. JOÃO SALDANHA . CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE . ASSIS CHATEAUBRIAND . SERGIO PORTO . LYGIA CLARK
Da infância pobre ao reconhecimento nacional, Dercy Gonçalves (1907 – 2008) foi Nossa Vizinha Ilustre no “Edifício Jacy" , da década de 1950, localizado na Rua Pompeu Loureiro nº106, em Copacabana. Com dez andares e vinte apartamentos, a construção foi residência da atriz, cantora e humorista.
Famosa por sua participação na produção cinematográfica brasileira das décadas de 40 e 50, as célebres chanchadas, Dolores Gonçalves Costa, mais conhecida como Dercy Gonçalves, nasceu em Santa Maria Madalena e estaria completando, segundo sua certidão de nascimento, 110 anos nesta sexta-feira, dia 23 de junho de 2017.
Reconhecida pelo Guinness Book como a atriz com maior tempo de carreira na história do showbiz (86 anos),a sua origem foi o teatro de revista.
Celebrada por suas entrevistas irreverentes, bom humor e emprego constante de palavras de baixo calão, foi um dos maiores expoentes do teatro de improviso no Brasil.
Filha de um alfaiate e de uma lavadeira, Dercy nasceu no interior do estado do Rio de Janeiro, em 1905, mas só foi registrada em 1907, como ela mesma contava. Abandonada pela mãe ainda pequena foi criada pelo pai alcoólatra. Desde cedo manifestou aptidão para a carreira artística e fez suas primeiras apresentações no coral da igreja, em procissões e festas locais. Começou assim a alimentar o sonho de ser cantora e a cidade se tornou pequena para seu talento e espírito transgressor.
Aos 16 anos, conheceu e fugiu com Eugenio Paschoal, cantor da Companhia Maria Castro, que visitava a cidade, entrando definitivamente para o mundo do espetáculo. Com o nome artístico de Dercy Gonçalves, formou com Paschoal a dupla Os Paschoalinos, cuja estreia se deu na cidade de Leopoldina, em Minas Gerais.
Após uma tentativa fracassada de fixar-se em São Paulo, a dupla retornou ao Rio de Janeiro, em 1932, passando a se apresentar na Casa do Caboclo com o espetáculo Minha Terra, cujo sucesso foi interrompido pela tuberculose contraída pela artista. Já afastada de Paschoal e amparada pelo empresário Ademar Martins, Dercy internou-se para tratamento em um sanatório em Minas Gerais. Apaixonado por ela, Ademar, apesar de casado, tornou-se pai de sua filha Decimar, nome formado pela junção de Dercy e Ademar.
Recuperada e de volta ao Rio, Dercy especializou-se em comédia e participou do auge do Teatro de Revista Brasileiro, brilhando nas peças As Filha de Eva e Do que Elas Gostam, com a Companhia Jardel Jércolis, da qual se tornou a principal estrela. Estes espetáculos lotaram durante meses o Teatro República.
Sua estreia no cinema se deu na Cinédia, em 1943, com o filme Samba em Berlim, de Luís de Barros, com quem filmou também Caídos do Céu, em 1946. Já na Cinedistri, alcançou sucessos de bilheteria com os filmes Depois eu Conto, de José Carlos Burle, Absolutamente Certo, de Anselmo Duarte e Uma Certa Lucrécia, de Fernando de Barros.
No embalo de seu grande sucesso no cinema, Dercy registrou em celuloide as peças Cala a Boca, Etelvina e Minervina Vem Aí, ambas de Eurides Ramos.
Sua própria produtora surgiu em 1947: a Companhia Dolores Costa Bastos. Em parceria com Walter Pinto, produziu Tem Gato na Tuba, contracenando com Walter D’Ávila e batendo recordes de bilheteria. Ainda como produtora, lançou Burletas, com Luz del Fuego, Elvira Pagã e Zaquia Jorge e, em 1951, alcançou mais um sucesso: Zum Zum, com a participação de Ankito. Foi nesta época que Dercy transferiu-se para a capital paulista, passando a atuar no Teatro Cultura Artística.
Em 1958, filmou com Watson Macedo aquele que é considerado seu melhor trabalho no cinema: A Grande Vedete. Neste filme, além da irreverência de sempre, Dercy tem oportunidade de interpretar um papel dramático: uma vedete, dona da Companhia, que perde seu lugar de destaque para uma jovem artista, que rouba também o coração de seu namorado.
Nos primórdios da televisão no Brasil, Dercy ingressou na TV Tupi, participando do Grande Teatro. Entretanto, o sucesso só surgiu em 1961, na TV Excelsior, com o programa Viva o Vovô Deville, de Sergio Porto, no quadro A Perereca da Vizinha, e no teleteatro Dercy Beaucoup, de Carlos Manga, com sátiras de personagens como Cleópatra e Julieta.
Dercy chegou a ser a atriz mais bem paga da TV Excelsior, onde, em 1963, conheceu o executivo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Passou também pela TV Rio e, já na TV Globo, com a ajuda de Boni, passou a trabalhar com Walter Clark. De 1966 a 1969, apresentou na TV Globo um programa de variedades, utilidade pública e entrevistas, Dercy de Verdade, um dos primeiros sucessos da emissora, com 70% de audiência aos domingos, que acabou saindo do ar em virtude da intensificação da censura, após a entrada em vigor do AI-5.
Durante a década de 70, Dercy continuou a atuar na televisão, participando do quadro Jogo da Velha, do Domingão do Faustão, ao mesmo tempo em que encenava no teatro comédias de costumes. Suas apresentações conquistavam um público cada dia mais expressivo, apesar de sua irreverência e do moralismo da época. Nesses espetáculos, passou a introduzir monólogos, nos quais relatava dados autobiográficos.
No final dos anos 1980, quando a censura permitiu maior liberalismo na programação, Dercy passou a integrar o corpo de jurados de programas populares, como o de Silvio Santos, e a participar de telenovelas. Montou, também, a peça autobiográfica Burlesque. De volta ao SBT, passou a comandar um programa próprio, que, entretanto, teve curtíssima duração.
Sua carreira foi pautada pelo individualismo, tendo sofrido, já idosa, um desfalque em suas finanças por parte de um empresário inescrupuloso, o que a fez retomar aos palcos, já octogenária.
No dia 23 de junho de 2007, Dercy Gonçalves completou cem anos com uma festa na Praça Coronel Braz, no centro do município de Santa Maria Madalena, sua cidade natal. Na festa, Dercy comeu bolo, levantou as pernas, fazendo graça para os fotógrafos, falou palavrão e saudou o povo, que parou para acompanhar a comemoração. Nunca Dercy foi tão Dercy. Embora oficialmente estivesse completando cem anos, Dercy afirmava que, como seu pai a registrou com dois anos de atraso, estaria, na verdade, completando 102 anos de idade.
Este também foi o mês em que Dercy subiu pela última vez em um palco: na comédia teatral Pout-PourRir, espetáculo criado e dirigido pela dupla Afra Gomes e Leandro Goulart, comemorando "Cem Anos de Humor", com direito à festa, autógrafos de seu DVD biográfico e uma sala recheada de fãs, celebridades e jornalistas.
Foi uma noite inesquecível. Dercy foi entrevistada pelo ator Luís Lobianco e deixou para a posteridade duas frases memoráveis: quando perguntada se ela tinha medo da morte, Dercy, sempre irreverente respondeu: "Não tenho medo da morte, a morte é linda, mas a vida também é muito boa". No fim da festa, após cortar o bolo com as próprias mãos e atirar nos atores, diretores e plateia, fez o público emocionar-se ainda mais, dizendo: "Eu vou sentir falta de vocês, mas vocês também vão sentir a minha". Homenagens
Em 1985, recebeu o Troféu Mambembe, numa categoria criada especificamente para homenageá-la: Melhor Personagem de Teatro.
Em 1991, foi enredo ("Bravíssimo - Dercy Gonçalves, o retrato de um povo") do desfile da Unidos do Viradouro, na primeira apresentação da escola no Grupo Especial das escolas de samba do Carnaval do Rio de Janeiro. Na ocasião, Dercy causou polêmica ao desfilar, no último carro, com os seios à mostra.
Dercy de Verdade é o título dado à minissérie sobre a vida da atriz, de autoria de Maria Adelaide Amaral, autora também de sua biografia. A minissérie estreou no dia 10 de janeiro de 2012 e teve quatro capítulos.
Em 4 de setembro de 2006, aos 99 anos, recebeu o título de cidadã honorária da cidade de São Paulo, concedido pela Câmara de Vereadores desta capital.
Dercy Gonçalves morreu no dia 19 de julho de 2008, aos 101 ou 103 anos de idade. Encontra-se sepultada em Santa Maria Madalena em um mausoléu especialmente construído para a grande artista. O estado do Rio de Janeiro decretou luto oficial de três dias em sua memória.